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domingo, agosto 02, 2009

O tempo passa para todo mundo

Às quartas-feiras, a jam-session regular de bandoneon e violão, que resulta em tangos, na fina-flor da canção francesa e em um ou outro chorinho (e até El Condor Pasa) em simpático boteco na Cidade Baixa, atrai boemiozinhos intelectualoides, jornalistas, publicitários, amigos do dono do bar (que no fim das contas, é o que todo mundo se torna depois de um tempo) ou qualquer outra pessoa atraída pelos petiscos apetitosos e a cerveja gelada. Até por Roberto Carlos que, rejuvenescido nas paredes, nos diz que é proibido fumar antes das 23h. Todos respeitamos.
Nessa quarta-feira última, senhora distinta, vestida de preto em roupas casuais, oclinhos tartaruga, queria lugar no meio do tango. As atendentes lamentaram, não havia (mesmo em dia de jogo e sem dispor de televisão, o boteco vive cheio) posto no interior do bar. Por isso, a senhora disse em alto e bom som: "então eu vou para outro bar!" E saiu porta afora.
Aliás, notamos que havia senhoras solitas em um número de três, no bar: uma, mais jovem, parecia esperar alguém que não veio, ao cabo de nossa estada ali; outra, de mais de 60 anos, uma touquinha azul, vibrava com cada acorde dos tangos, sorria aos outros frequentadores, puxava papo, tomava a cervejinha; outra ainda, de uns 40 e poucos, jaqueta de couro e cabelo escovinha bem vermelho, tomava uma cerveja no balco e ouvia o tango maravilhada, sempre sorrindo e fazendo comentários com os convivas.
Mas minha amiga, sentada de frente para a porta, me chamou a atenção: "olha lá". Do lado de fora, a senhora de preto, encarangada de frio, esperava que vagasse uma mesa no interior do bar e no interior do som. Quando houve mesa, ela entrou e se instalou bem próxima ao epicentro da música linda. Na sua cara, uma invariável carranca era a impressão de um estado de espírito amargurado, solitário e que talvez dissesse: "eu sou assim e vocês não têm nada a ver com isso".
Tango após tango e a senhora não mudava a cara. Veio o sanduíche de queijo, rúcula e tomate seco, uma Bohemia long-neck e as feições eram as mesmas. Ela olhava para os lados, carrancuda, molhando o pão no azeite do prato, mastigando e afrontando, com uma sobrancelha levantada, quem cruzava olhares com ela: "eu sou assim e vocês não se metam na minha vida", dizia com os olhos verdes. Ela mastigava como se o sanduíche fosse de jiló.
Até que o duo tangueiro mudou o repertório e atacou com "Carinhoso". Todos os carinhosos, irmanados, se puseram a cantar. Minha amiga se empolgou e fez coro com voz empostada.
E lá, sozinha na mesa, a garrafinha long-neck vazia, a velha de preto não emitia voz mas movia os lábios, que diziam: "Vem, vem, vem, vem... vem sentir o calor dos lábios meus à procura dos teus. Vem matar essa paixão que me devora o coração! E só assim, então, serei feliz. Bem feliz!"

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Les fantasmes du fantôme

Eu me perdi na minha rua, vagando em um horário ermo, com a mente baldia, com o mato crescendo nos meus ouvidos, brotando flores regadas pela sua voz. Eu vim daninha rezando a Santa Ana por uma dádiva tardia e ela veio multifacetada, ora em duas rodas que eu movimento, ora em quatro patas, miando por si só, ora cega, muda e invisível, ora submersa nos fantasmas da mente. Eu vim assombrando o frio da noite e penetrando as frestas, mas amornando minhas moléculas no calor da prosa, no langor do bolero, tornando-me macia no carinho das dobras, nas curvas do caminho, na leveza do caminhar que amanhecia; e me tornei esperançosa mesmo quando me percebi no silêncio das palavras, na escuridão do dia, na insipidez da língua, na asfixia da alfazema, na insensibilidade do arrepio, quando nada sequer parece, ou tudo parece nada.

domingo, novembro 23, 2008

Velocidade

Alguém me avisou que era perigoso ficar à espreita, observando cada movimento a ponto de prever o próximo. Porque é mentira, não se o pode prever: a surpresa vem quase sempre, para bem ou para mal.
Ouvi o ruído de um sininho de bicicleta, uma bossa-nova se aproximando às pedaladas, cabelos ao vento, suor na testa, sorriso leve estampado no semblante, como se o corpo todo esboçasse uma alegria despreocupada. E eu na esquina, de olhos brilhantes, as velas infladas, a carranca na proa de um navio, uma carranca que carregava um ramalhete de flores e ia abrindo um caminho cheiroso pelo mar.
O carro que vinha não viu a nenhum de nós: escoriações, flores escangalhadas, uma roda entortada. Mas mesmo assim nos tínhamos nos braços.

quarta-feira, outubro 22, 2008

Dos amores platônicos

Eu lembro do meu primeiro amô platônico, o Rolando Júnior. Sim, Rolando Júnior tinha 19 anos (eu tinha 13 e nessa altura já tinha brincado de médico com TODOS os meus primos), parecia o Brad Pitt e era muito gente boa. Claro, apaixonei. Ele fazia ssssshiatro, e gostava de Led Zeppelin, Pink Floyd e adjacências, tendo me emprestado vários discos, fitas e congêneres. Inclusive a música que tocava quando eu o vi pela primeira vez, numa loja de motocicletas, era "Stairway to Heaven", mas na versão Dread Zeppelin, que transformava todos os sons da banda de Robert Plant em reggae.
Enfim, a dona da loja de motos, minha amiga, morava no mesmo prédio que ele e prometeu ajudar na minha empreitada amorosa, de modo que um dia fui ao prédio deles, um domingo, pra um almoço de páscoa ou coisa assim. E a gente estava subindo o elevador, quando ela me disse: "olha, eu não quero ser estraga-prazeres, mas ele tem namorada". E eu, de batão vermelho e uma blusa breguérrima (vocês vão vendo, se eu não tenho o costume de usar batão vermelho nem hoje em dia, imagina como eu não fiquei em 1991), fiz uma certa cara de decepção, como se dissesse "contra os desígnios divinos a gente não pode lutar".
Ao entrar no apartamento, conheci a Sílvia, que era mais velha que o Rolando, linda, descolada, fazia sssssshiatro também e era muito gente boa. Daí que fiquei amiga dos dois, uns fofos. Eles casaram, tiveram filho, separaram, são amigos até hoje e faz muitos anos que eu não vejo a ambos.
Daí que depois dos 30 anos, amor platônico é uma coisa que não cabe. Mas acontece, principalmente porque já terá acontecido pelo menos uma vez na vida.

segunda-feira, outubro 06, 2008

Antes de morrer

Um dia, enquanto ela arranhava uma música ao violão - acompanhando um daqueles livrinhos de cifras - ele, sentado no chão e recostado ao sofá, beijou seu joelho. Nada lhe parecia mais apropriado para aquela tarde mormacenta de um mês primavera/outono que beijar seu joelho enquanto ela dedilhava mi-si-sol-ré-lá-mi.

segunda-feira, junho 23, 2008

Road Movie no fim-de-semana

O nome dela é Lilica. Ela tem cerca de 6 meses, caninos já nascidos e é fruto do amor de uma fêmea de Galgo com um fox-paulistinha tarado. É uma cadela elegante, amorosa e civilizadíssima, que economiza nos latidos e é paciente quanto à colocação de roupinhas de inverno e tentativas mal-sucedidas de colocação de peiteira.
Lilica estava disponível para doação em Porto Alegre e seria acolhida por uma família em Caxias do Sul. Levada à cidade por mim e pela minha amiga ruiva, Lilica despediu-se com choro canino dos companheiros bassês-hound com quem conviveu provisoriamente por alguns dias. Nas duas horas de viagem até Caxias, ficou quietinha no banco traseiro do carro, ora pousando a cabeça em seu próprio travesseiro, ora ficando de pé para olhar a paisagem, sempre em silêncio mas com uma adorável cara de desconfiada. Ao chegarmos lá, a desconfiança da bichinha se concretizou, pois a família, desejosa de um cachorro pequeno, não gostou do tamanhão avantajado (mas esguio) do Galgo e manisfestou a 2a. rejeição da vida da pequena (a primeira foi depois que os filhos de uma senhora inesperadamente hospitalizada, que a levava passear de Peugeot, não quiseram, além da mãe, cuidar também da cachorra). Com conhecimento do fato e pouco dispostas a enfrentar duas horas de viagem de volta a Porto Alegre, passamos a sondar conhecidos e amigos sobre a possível vontade de acolher uma amiga de quatro patas. Na casa de uma delas, inclusive, recebeu calorosa acolhida de seus semelhantes, mas os donos não tinham condições de abrigar mais um mascote. Mas nos deram a boa notícia de que a irmã da dona da casa, moradora de Barracão-RS, aceitaria ficar com a filhote. E aí vem o diálogo:
- Bem, agora a gente vai ter de levá-la a Barracão.
- E quanto tempo até lá?
- Uma hora e meia, mais ou menos.
- Caramba, já não bastaram as duas horas desde Porto Alegre...?
Mas, tomadas de pena da cadelinha e empatizando com a dor das rejeições anteriores, voltamos ao carro, com mais dois companheiros e a Lilica no banco de trás, e tocamos rumo ao norte do Estado.
Qual não foi a surpresa, não tendo olhado mapas nem pego maiores informações, que Barracão não fica a 1h30 de distância de Caxias: fica a 4h30. Passamos, portanto, por São Marcos, Vacaria, Lagoa Vermelha, Cacique Doble (tomando cuidado com a presença de uma reserva indígena à beira da estrada), São José do Ouro e, depois de uma estrada assaz esburacada, Barracão.
Chegamos à noite, comemos pinhões à beira do fogão à lenha e tomamos sopa de capeletti. A nova dona, a Neide, ficou encantada com o jeito da bichinha, que farejava tudo à sua volta e que encantou-se, por sua vez, com os periquitos e canarinhos no quintal e refestelou-se na poltrona, sentindo o calor do fogão.
Desistindo de passar a noite tanto na casa da Neide quanto no estabelecimento que dizia "Hotel e Sorveteria", mesmo porque fazia 5ºC, decidimos tomar o caminho de volta. Na noite chuvosa de sábado, nada de postos de gasolina abertos. Achamos um em São Marcos, com o combustível já na reserva.
Chegamos bem. Soubemos, já no domingo, que Lilica, festiva, acompanhava Neide enquanto esta estendia as roupas no varal.

sábado, dezembro 22, 2007

Feliz Natal

Malika, nove meses de gestação, percebeu que a bolsa rompera nos primeiros minutos de um bombardeio que caía sobre Qana em ocasiões intermitentes desde a noite anterior. Bachad, que se casou com Malika quando ela tinha treze anos, estava inquieto fazia alguns dias, desde que Fuad, amigo seu de infância e soldado das fileiras do Hezbollah, dissera, com olhar injetado e ar cansado, que o menino que sua mulher carregava no ventre, estava predestinado a uma missão divina: "ele é a semente do triunfo do Islã, Bachad".
No entanto, a lembrança passou por sua mente como uma tempestade de areia e, passado o ardor em seus olhos, Bachad tratou de sair de Qana com Malika logo aquela bateria de bombas tivesse cessado. Pegou seu burro, ajudou Malika a subir em seu lombo e, com poucos pertences, pegou um pequeno caminho que os fizesse pelo menos chegar à cidade mais próxima. Acima do cheiro de pólvora e carne queimada, o ar da noite era limpo e as estrelas, que enchiam de brilho o manto negro da madrugada, acabaram por guiar seu caminho até um estábulo, em que tiveram de parar pois as dores de Malika já se tornavam insuportáveis. Sorte que a propriedade era de Muhammad, seu conhecido, e não seria perigoso para passarem a noite até Malika se sentir melhor.
Sobre o estábulo, parecia que uma das estrelas brilhava mais forte. Após duas horas de gritos e gemidos, irrompeu um choro infantil e Bachad segurava, em suas mãos ensangüentadas, uma menina miúda e frágil. "Maldito seja, Fuad deve estar louco", pensou. Ao mesmo tempo, com o cordão de carne ainda ligado à menina, Malika pensava: "É ela quem vai conseguir deixar para trás todo esse sofrimento e vai lutar mais do que eu nunca consegui".

sexta-feira, novembro 23, 2007

Sueli, o fantasma

Sueli era um fantasma. Durante boa parte de sua vida, apesar de viva, só fez assombrar as pessoas à sua volta, presente nas frestas de seus cotidianos, absorvendo suas existências, as filtrando e provocando pequenos assombros furtivos com a distorção daquilo que apreendia.
Um dia, Sueli, a fantasma, acabou indo embora porque os novos moradores da casa mal-assombrada estavam mais concentrados em samba e churrasco e assustaram mais Sueli do que ela conseguiria assustá-los. E também porque quando eles olhavam para onde Sueli, o fantasma, podia estar, simplesmente só viam através dela.

sábado, outubro 27, 2007

Triste fim de Policarpa Joaninha

- Olha, cê tem que prestar atenção numa coisa - disse M., com sua sapiência materna.
- Ahn, no quê, mãe?
- Quando a gente tira a roupa do varal, tem que ver se não tem nenhum bichinho. Agora mesmo tinha um andando na roupa, e eu matei.
- Ah é, e o que era?
- Ah, uma baratinha ou coisa assim...
Olhei em volta procurando o inseto e vi pontinhos coloridos no chão.
- Yo, mãe, cê matou uma joaninha, tadinha.
- Não, não era não! Devia ser um besouro qualquer!
- Não, ó. Era uma joaninha sim - e, com um pregador de roupa, recolhi o ex-bichinho para mostrar a ela.

Subitamente arrependida, M. não quis ver a joaninha morta quando eu aproximei dela o pregador de roupa. O diabinho que mora em mim resolveu agir:
- Olha, pobrezinha da joaninha, coitada. Tu mataste a pobrezinha e ela nem tinha culpa de nada.
- Não...
- Matou sim, a pobre da joaninha. Se fosse uma barata nojenta, tu nem ligavas...
- Nãão...

E, morta de pena, M. começou a choramingar pela culpa da joaninha morta. Ela gosta muito de bichinhos.

domingo, julho 22, 2007

Pequena descrição

Só havia lá fora espessa neve e noite cerrada. Na vidraça respingava a umidade morna da casa. Sob as cobertas, a alva pele vinha à luz da lamparina, que bruxuleava e tornava difusos os contornos do que ali existia. A solidez só era possível pela firmeza do toque.

quarta-feira, julho 11, 2007

É a história de duas formigas que se amam


Mas Rosaura continua gostando do amanhecer e se sentindo melancólica ao crepúsculo.

Antes de conhecer Hipólito, Rosaura fingia que não gostava de u2. Fingia, inclusive, que era uma formiga que não se importava em viver aventuras, aproveitando a eternidade enquanto-durante do amor, ele, que não é imortal. Rosaura era, então, uma criatura dispersa entre tanta informação, oferta-procura, vivente plenamente imersa no transtorno de déficit de atenção que acomete, agora, não só ocidente mas também oriente e causa interferências cruciais nas antenas dos bichinhos.
Com Hipólito, porém, uma lenta metamorfose passou a operar no âmago de Rosaura.
E Rosaura muda até hoje, mesmo que Hipólito disso não se aperceba, a cada vez que ele pisca os olhos, inspira o ar da manhã... Rosaura exibe desdobramentos diferentes, ora horríveis, ora maravilhosos, ora intensos, ora amenos, desdobramentos de seu caleidoscópio íntimo. Acha, inclusive, lá no fundo, que Hipólito talvez também tenha mudado um pouco.

quarta-feira, maio 30, 2007

Displicente

- Tudo aquilo que você levou anos pra escrever, outros tantos para achar um editor, mais dois anos para revisar e imprimir, e corrigir a prova e imprimir a primeira tiragem, e encadernar, e distribuir, para finalmente vender e ganhar 10% de direitos autorais sobre a obra...
Eu dei de graça.

quarta-feira, maio 02, 2007

Paulicéias

Viena, esquina da Rua Augusta com Alameda Santos. Saladinha qualquer enquanto o papel que recobre a mesa é golpeado, picassamente, com bastões de giz-de-cera nas três cores primárias. Limonada? Sim, verão. Limonada. Com o azul, palomas etéreas da paz; com o vermelho, mulheres flamencamente chorosas; com o amarelo, sóis escaldantes de Andaluzia.
São os Jardins: de noite, iria ao Pequi, esquina da mesma Alameda Santos, mas com Peixoto Gomide, achava; ou no Fran's abafado da Haddock Lobo. Ou, sei lá, no Espaço Unibanco da Augusta, em que avistara Marcelo Rubens Paiva no seu meio de transporte, quando fora assistir à Liberdade é Azul, do seu estimado Kieslowski.
Não importava qual o lugar, contanto que nostalgia e saudade fossem aplacadas na vivência pródiga das ruas paulistanas, com todo o movimento a que tivesse direito, com todo o anonimato que lhe permitisse fugir, de si mesma, na entrada do metrô. Consolação.

domingo, abril 22, 2007

Café de Flore


Françoise Hardy - Message Personnel - 1973

Sentada no terraço de um café, sua única companhia era o jornal já quase de ontem. A penumbra tomava conta das calçadas onde soavam os passos já tranqüilos do fim da tarde, quando todo mundo largava do trabalho e desafrouxava gravatas e botões.
Ela o esperava não fazia muito. A luz alaranjada do sol, que iluminava seu rosto, dava lugar aos faróis dos carros que faziam curva na rua do café e, vez por outra, ofuscavam seus olhos, que olhavam em direção ao cruzamento, à procura dele.
Será que viria?

quarta-feira, abril 11, 2007

Diálogos do amô #2

O baratão entra na sala, sambando pelo carpete. A mulézinha sobe no sofá, grita, esperneia, coraçãozinho batendo a mil:
- AAAAAAAAARRRGH! Uma barata! Mata! Mata! Mata!
Mulézinha se enfia no quarto, fecha a porta, coraçãozinho batendo a mil:
- Matou!? Matou!?
Cavaleiro de armadura reluzente diz:
- Matei!
- Matou mesmo!???
- Matei! Me alcança um chumaço de papel higiênico, por favor.
Minutos depois, morta a barata, descartada a carcaça sem vida da barata e dada a descarga, mulézinha, aliviada, diz a Cavaleiro de armadura reluzente:
- Cada vez que tu matas uma baratona dessas, tenho mais certeza de que tu és o amor da minha vida!
- É mesmo? - diz Cavaleiro de armadura reluzente com malícia no olhar.
- Mesmo, juro!
- Então vai chegar o dia em que vou vir pra você e dizer: "Amor, hoje foram DUZENTAS!"
- Hohohohohohohohohohohohohoho...
- Hohohohohohohohohohohohohohoh...

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Confiture amère


Ah, cette nana va te faire mettre en genoux...

Une vie de danseuse. Danseuse, un meilleur mot que 'ballerine', puisqu'une danseuse peut-être se délivre à plus de choses que tout simplement une petite femme qui suit l'éxactitude d'une choréographie bien définie, avec de tout-petits pas, des pas minuscules qui dissimulent un poids majuscule.
La danseuse s'est permise donc suivre un tourbillon qui a commencé dans le coin le plus timide de son coeur. Elle est partie avec le cirque. Elle mangeait du feu et des couteaux, elle était la contorcioniste, elle s'équilibrait sur un fil et se posait, gracieuse, sur un cheval qui courrait en circle. Mais surtout, elle était la dompteuse qui a subjugué le lion, a enfilé la tête dans sa bouche affamée et, plus farouche que la bête, l'a fait renoncer à sa proie et lui a fait proie lui-même.
Puisque la danseuse, elle, faisait tout le monde danser d'après son rythme.

Uma vida de dançarina. Dançarina, uma palavra melhor que 'bailarina', já que uma dançarina talvez se entregue a outras coisas que simplesmente uma jovenzinha que segue a exatidão de uma coreografia bem definida, com passos pequeninhos, passinhos minúsculos que dissimulam um peso maiúsculo.
A dançarina se permitiu portanto seguir um turbilhão que começou no canto mais tímido de seu coração. Ela partiu com o circo. Ela comia fogo e facas, ela era a contorcionista, ela se equilibrava em cima de um fio e se punha, graciosa, sobre um cavalo que corria em círculos. Mas sobretudo, ela era a domadora que subjugou o leão, enfiou a cabeça em sua boca faminta e, mais selvagem que a fera, o fez renunciar à sua presa e lhe fez presa ele mesmo.
Porque a dançarina fazia todo mundo dançar conforme sua música.

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Diálogos do amô #1


For export production

- Oi!
- ... oi. Só liguei pra dizer que estou com saudades!
- Adoro quando tu me ligas assim, sem mais nem menos.
- É...?
- É. Sabe que eu te amo?
- Também te amo... que coisa, né?
- Hehehe. Sim, coisa boa a gente ter se encontrado.
- ...
- Queria que tu estivesses aqui. Assim poderia te beijar muito.
- Hmmm. Sabe? Gosto de pensar que quero ser tua mulher.
- Tu tens tudo pra ser minha mulher.
- ...
- Só depende de uma coisa.
- Do quê?
- De baixar a produção.
- Ahn!? Baixar a produção? De quê?
- A produção de peixinhos e charutos... zzzzzzzz

(Na manhã seguinte...)
- Eu disse aquilo tudo mesmo que tu estás me contando?
- Disse. Eu não tava entendendo nada!
- Mentira! Tu estás brincando comigo!
- Não tou não. Você tomou aquele remédio de novo?
- Tomei. Ahhh!
- É, pois é!
- Hehehehe. Desculpa!

quinta-feira, novembro 23, 2006

As fascinantes fêmeas do mundo animal

Desde Darwin nas ilhas Galápagos, a ciência não se deparava com espécies tão raras e peculiares, algumas delas mesmo no universo doméstico e no meio urbano!
São elas:



- A cachórinha afoita de Garibaldi: foi vista pela primeira vez perto de uma fábrica de espumantes; a princípio, não é muito dócil: manifesta-se por rosnados e várias tentativas de mordida. Depois de uns nacos de pão caseiro e um pouco de ousadia ao acariciar sua pelagem curta, fica facilmente domesticável. Desde que cativada, gosta de dormir aos pés de membros de famílias próximas.




- A rrrranga-tanga do Congo: espécie raríssima, ocorre em selvas cujo equilíbrio ecológico foi afetado pela ação da bactéria Alfajoris rivera. Nas matas em que está presente, a rrranga-tanga avermelhada do Congo grunhe com alegria e toma leite com achocolatado na mamadeira.





Porém, a mais curiosa espécie catalogada, intrigando os mais conceituados zoólogos, vem de Portugal: é a ratazana pescadora do Tejo, citada não sem perplexidade pelo grande escritor lusitano José Cardoso Pires, que as descreve em bandos, sentadas em fileiras à beira do rio, com os rabos quietamente enfiados na água. Se em um primeiro exame, a visão parece anódina ao observador, no minuto seguinte a cena ganha o real aspecto da vida selvagem, quando a cauda de uma delas é fisgada pela pinça de um caranguejo, e este é trazido à tona, para ser devorado prontamente pela ratazana, precedida, às vezes, por uma dita risadinha diabólica.

quarta-feira, novembro 08, 2006

Catamaran Rigmarole*

No tórrido verão mediterrâneo de 1769, o pirata bronzeado, sarado e fedorento Rafaël Le Bihan cofiava o grande bigode e contava cada moeda de ouro que conseguira no saque a barcos malteses, que lhe havia rendido alguns dobrões conseguidos ante à degola do capitão, "bem feito", pensou ele.
Apaziguada sua sede de sangue e riquezas, chegou Paquito, o papagaio, num vôo rasante, e quase gravou suas garras no ombro queimado de sol do pirata. Emputecido depois de um "ai" ardente, o feliz proprietário da embarcação arregalou olhos ao ouvir da ave de penas verdejantes a localização de seu próximo desafio: "Catamaran Rigmarole". O dente de ouro do pirata brilhou tanto quanto seus olhos castanhos.

* assunto de spam remetido por Isaac Clarke. Spam também pode ser inspirador.

domingo, outubro 22, 2006

Lyncheana

O forró tocava e as pessoas estavam animadas. Mais de vinte ou quase trinta, a maioria era membro de uma mesma família liderada por uma velha matriarca pernambucana, que em verdade parecia uma tartaruga esgruvinhada, vestindo uma saia de crente que lhe vinha até os peitos, os cabelos longos presos num rabo de cavalo que lhe chegava até à bunda.

Uma de suas filhas vivia em uma mansão num bairro nobre, mulher-escrava de um tenente da reserva, dono de uma rede de casas lotéricas. Na mansão, entre os sofás de couro e os móveis de madeira de lei, passeava uma cabra e algumas galinhas. A vivenda da matriarca, porém, era em um casebre de madeira cheio de frestas misteriosas por onde escapava o som da música alegre.

Deslocada, ali estava uma menina de seis anos que, de olhos bem arregalados, absorvia em uma só onda o forró, a mistura do cheiro do churrasco, dos homens de cheiro forte, das mulheres de perfume barato, das crianças com rosto sujo de chocolate e groselha e a luz de lâmpada amarela, fraca e estranha. Ela deteve seu olhar na fonte da música: uma eletrola antiga, dos anos 50. Um móvel compacto, com um tampo que guardava o prato da vitrola. Ao abrir o tampo, à altura de sua cabeça, ela viu o inesperado: em cima do disco de vinil, girando em 33 rpm, havia um enorme besouro de casca vermelha, que parecia um anel de rubi a seguir o ritmo do forró.