Sábado, Novembro 06, 2010

Salento

Um escuro qualquer, de penumbra e sonho. A palavra como tijolo na construção de um vestíbulo anímico. Deus e a transcendência, Deus e o momento da pele. Um segredo de náilon ao pé do ouvido.

Rumoreja uma praia nos pêlos dos meus braços, o mar avançando na planície do dorso, o torso, retorcido, uma erupção caminhando na nuca e a preguiça do suor adormecido.

Os olhares prismados nas policromias do ambiente, a luz tênue de uma lâmpada fraca. Uma piscina de tecido, nadando em humores. Lavanderia, represa.

Sábado, Abril 17, 2010

Não é para entender, mesmo

"Nuvem de carinho" pode ser um artifício criado para que alguém que, em fingindo que cuida, que zela, que olha, na verdade se protege de viver de maneira diferente à vida que seus fantasmas lhe sugeriram como uma voz de esquizofrenia.

Sexta-feira, Abril 16, 2010

Helicoidal 2 - DNA é carma

Que bom que eu disse tudo isso aí embaixo. Agora vou me ali me vomitar, me virar do avesso, e já volto.

Helicoidal

A coisa nunca tem muito motivo para acontecer. Tudo é resplandecente, solar e lânguido, a gente se entrega a um hedonismo onde o amante é objeto e veículo e, aí, um dia, a coisa (você veja que o que quer que seja a "coisa": amor, paixão, putaria, ela é sempre um amálgama confuso que não temos coragem de nomear) acaba com o fogo ainda aceso, algumas vezes porque a gente se deixa engolfar pela covardia do roteirinho adaptado, quando é só com um original que a gente sabe que vai ganhar o Oscarzinho pelado. De inho em inho, a mediocridade do drama pessoal mata o amor, quando o amor deveria trucidar o drama pessoal, devorando tudo o que encontra até que não sobre mais nada. O pior é que o que sobra, sobrevive e continua esperando ser devorado em quatro terços até não sobrar nada mais que um átomo do que a gente já tinha sido.

Segunda-feira, Fevereiro 22, 2010

Desenvolvendo músculos

Coordeno um sistema de navegação atrelado a asas invisíveis, que demandam grande esforço dos meus ombros. Pego impulso e estou no ar, agitando meus membros e tentando tomar a direção certa. Na verdade o voo é meu meio de transporte na rotina de todas as manhãs, batendo asas, voando tranças.

Segunda-feira, Fevereiro 15, 2010

Post esparso

Uns pinguinhos de chuva que conseguiram tornar o verão, por um único momento talvez, algo que não exponha tanto. Não tanto as peles, mas que consiga fazer o tanto de sol e umidade se aquietar nos poros. Ao mesmo tempo o que é interno vem à tona e faz com que a vida ande mais um ponteiro e mude um pouco mais.
Mas isso é o automatismo da individualidade, é a ilusão de ser mais que um autômato que a natureza controla, travestindo-se da ilusão de que um dia a pudemos controlar.

Segunda-feira, Dezembro 07, 2009

O cinema e a educação sentimental

Não no ostracismo, mas em parte cultivando um certo isolamento, o cinema tem me proporcionado, em poucos dias, mostras das emoções humanas que têm dialogado com o que eu tenho experimentado nos últimos anos. Claro que, dentre estes, assisti algumas porcarias (tipo Jean-Claude Brisseau, que pra mim revisita a pornochanchada mas sem o charme do David Cardoso), mas, no balanço, a franca fraqueza humana presente nos seguintes filmes nem me deixou entristecida, ainda que não tenha restabelecido minha fé na humanidade. O resumo da ópera, inclusive olhando para my own-private umbigo, é esperança.
- Amantes
Os protagonistas do filme, personagens do Joaquin Phoenix da Gwyneth Paltrow, são geradores espontâneos de vergonha alheia e, por isso mesmo, tão verdadeiros. Mas o heroi perdidão e crianção tem a sorte de, mesmo confuso na rede de uma paixão vã, mesmo inflamado daquele desejo que só sabemos inútil depois que ele passa, estar cercado de amor. Um amor sem muitos estardalhaços, mas, ao mesmo tempo, o melhor deles. O tipo de amor "Stand by Me", que é o que a gente menos tem hoje em dia, mas que ainda não aprendeu a valorizar.
- 500 dias com ela
O mocinho é fofinho, a mocinha é fofinha, o filme todo é fofinho mas nem por isso a coisa toda é de se jogar fora. Porque é assim mesmo. A gente acha tudo fofo e ensolarado quando ama. A gente acha que tudo é esplendor e aurora, quando não passa de um ocaso que não serve só para nos deixar arrasados e de pijama o dia todo. O pulo do gato está em usar esse ocaso para abandonar nossos resíduos e partir para outra. Não outro amor, só uma nova visão das coisas.
- O Casamento de Rachel
Fui ver ontem à noite (domingo), já sabendo que o filme é pesado, tem climão e que ia acabar com a minha semana. Mas oh, não. Todo aquele constrangimento, aquele sofrimento, aquele passado regurgitado só foram para mim expressão de um desejo intenso de melhora. Não existe transformação sem dor (os ossos doem, a dilatação do canal vaginal doi, o peeling doi, a vertigem ao atravessar uma ponte é arriscada e desconfortável) e amor sem a incompreensão abarcada. Ademais, o vertiginoso feriadão matrimonial de Kym, irmã da noiva, marcou seu processo ultraconcentrado de evolução, que consegue deixar de lado algumas das suas culpas para investigar o passado com mais franqueza e tendo a coragem de expressar uma mágoa muito justa, apesar de todas os erros gravíssimos que ela cometeu.

Terça-feira, Outubro 13, 2009

O sexo é o tinteiro

Penso nas fibras, nos músculos das pernas, rijas, sustentando tudo. Penso nos braços fortes, mas permitindo-se a floreios e passeios pelo ar. O tronco é um eixo e um leito. A cabeça uma fonte, a língua, uma pena de tinta viscosa a escrever no livro de cabeceira.

Quinta-feira, Outubro 01, 2009

Diálogo natural

Eu finjo que não tenho coragem de escrever sobre o que existe aqui dentro. É que o dentro continua introspectivo, absorvendo o que há fora. Olhando pela janela do prédio imponente e me inspirando da água do lago, cheio de chuva, dos barcos, dos cães à beira do cais, das garças inertes às popas das embarcações; cumprimentando cães na minha língua de conversar com bichos; assoviando passarinhagens; coçando a barriga do gato; regando o manjericão em flor.

Domingo, Setembro 27, 2009

O surrealismo do dia-a-dia

Achei de uma beleza magritteana a madrugada de ontem, na qual chovia cântaros e trovejava em 70% do céu. Nos outros 30, estava limpo e havia estrelas. Na porção fartamente nebulosa do firmamento (acho linda a palavra firmamento, como se fosse toda a imensidão acima de nós o que sustenta a solidez disso aqui onde estamos - e é, levando em conta os outros planetas e a gravidade que rege tudo isso), uma nuvem mais baixa, iluminada pela luz amarelada da cidade tinha, durante alguns minutos antes de se dissipar, a exata forma do mapa da Europa, com península ibérica, a costa da França, a Escandinávia e até a botinha da Itália, se estendendo numa massa maior de nuvens onde eu localizei a Rússia. Só faltaram as Ilhas Britânicas, mas aí seria pedir demais.
A minha esperança, portanto, era de que fizesse sol hoje de manhã, mas os 70% de chuva, trovões e relâmpagos venceu o buraco estrelado. Mas atrás, está o céu azul e, mais tarde, as mesmas estrelas. É por isso que um dia nublado nunca é a realidade da vida. É só um véu cinzento que mal e mal cobre o sol da existência.

Quinta-feira, Setembro 10, 2009

A Dor é o que ela nos faz sentir

Dominique Blanc nos agarra pelas entranhas e dá à luz, através da plateia, a dor da espera e a dor da chegada e a dor de não reconhecer o que nos é caro. A dor de admitir que, mesmo no papel de quem atravessa, com certa sanidade, anos de privação, são esses os que padecem da demência de não reconhecer o avesso que a guerra torna nossos mais íntimos semelhantes.
Dominique Blanc é quem sustenta e desenvolve o monólogo “La Douleur”, dirigido por Patrice Chéreau, adaptado do livro homônimo de Marguerite Duras e levado ao palco do Porto Alegre em Cena neste ano de 2009. A atriz francesa nos traz, aos dias de hoje, o angustiante e apoteótico ano de 1945, em que as tropas alemãs sucumbiam de cidade em cidade, cada uma delas liberada pelos soldados aliados, em um trabalho doloroso e paciente, amparados, em porões esperançosos e nas ondas do rádio crivadas por mensagens cifradas pelos herois da Resistência.
Ela nos entrega, à plateia, um livro inteiro (ainda que curto), distribuído em seu gestual e dividido em duas partes: primeiro, a longa e angustiante espera por seu marido Robert L., sempre amparada pelo amigo - e, talvez, amante – D., que dura dias insuportáveis ao longo da libertação de cada campo de concentração e da chegada dos trens de prisioneiros deportados que nunca trazem o marido que ela crê morto; depois, o resgate preciso e urgente de Robert L., que retorna a Paris, fazendo toda a angústia culminar num sentimento aterrador que invade sua esposa e seu amigo, dado pelo relacionamento com alguém que já não é, com alguém que se reconstitui, aos poucos, calcado nos fundamentos abalados de seus próprios escombros.
Diante do farrapo humano, como não se reduzir, também se neutralizar? A partir do farrapo humano em cujos olhos enormes nos espelhamos, e mesmo em cujos excrementos depositamos nossas maiores expectativas, é possível nos reconstruirmos a partir daquele zero que é só esperança, que é a pura busca pela reexistência e pelo renascimento. 1945 nos faz encarar o presente, porque, mesmo espelhados nos olhos arregalados dos homens e mulheres que sobreviveram aos campos de concentração com apenas um fio de vida, nos fortalecemos só para repetirmos as mesmas atrocidades nos confins mais variados do mundo, mas também nos centros da civilização, que sempre estará em ruínas e sempre se reconstruirá para beber mais sangue, ao mesmo tempo em que paixões se desenrolam, enquanto amamos e sentimos que amanhã poderá ser melhor.

Quarta-feira, Setembro 02, 2009

Desabafo umbiguista

Raiva, raiva, raiva. Da mediocridade e mesquinharia alheias, sem esquecer da minha própria mediocridade e mesquinharia, que não vou dizer que não as tenho e não as pratico. É raiva da incapacidade crescente de relacionamento que o umbiguismo gerou entre os seres humanos, e que me contamina, também.
É só raiva, que passa. E, post inútil, é prova de que esse blog anda com o propósito meio perdido e pode virar uma ruína, que o tempo vai se encarregando de fazer sumir.

Sábado, Agosto 15, 2009

Spinning Round

Quando a gente se põe a girar, o mundo passa a girar junto?

Quarta-feira, Agosto 05, 2009

Sound machine Dreamlog

Sonhei que um dos conhecidos colunistas sociais da cidade era uma mulher alta e implacável, com trejeitos de bicha quá-quá. Ele(a) tinha uma filha sempre arrumadinha, que gostava de destratar e maltratar, além de chamar todo mundo de f.d.p. para baixo. Mas sempre muito elegante, chapelão à la Jóquei Clube, e tal.
Sonhei também que na aula de italiano havia todo tipo de assunto, menos lição de italiano. E, apesar da diversão, eu estava irritada pela subversão do conteúdo e da professora, que era um homem, divertido como ela. Mas um homem.
Por fim, ao sair da aula de italiano, fui com meu irmão mais novo a uma loja de música. Cheia, abarrotada de discos de vinil novinhos. Todos a preços módicos (R$ 8,50 a R$ 10,00), todos incríveis, de jazz e rock. Meu irmão pegou um ao gosto dele. Eu ficava manuseando Beatles, Pink Floyd, e revivi a maravilha de segurar o Atom Heart Mother (com uma vaca na capa), do Pink Floyd. Mas fiquei triste de repente, me dando conta de que eu não tinha equipamento para tocar o disco. A vendedora tentava me estimular: "mas você não tem vitrola"? "Tenho, até, mas não funciona mais" (pensando numa vitrola da Telefunken que havia na casa dos meus pais). "E por quê, você sabe"?, me perguntou a vendedora. "Não sei. Talvez precise trocar a agulha"...

Teimosia

Porque a gente insiste, às vezes, em arranjar um motivo para sofrer. Quando não são vários.

Domingo, Agosto 02, 2009

O tempo passa para todo mundo

Às quartas-feiras, a jam-session regular de bandoneon e violão, que resulta em tangos, na fina-flor da canção francesa e em um ou outro chorinho (e até El Condor Pasa) em simpático boteco na Cidade Baixa, atrai boemiozinhos intelectualoides, jornalistas, publicitários, amigos do dono do bar (que no fim das contas, é o que todo mundo se torna depois de um tempo) ou qualquer outra pessoa atraída pelos petiscos apetitosos e a cerveja gelada. Até por Roberto Carlos que, rejuvenescido nas paredes, nos diz que é proibido fumar antes das 23h. Todos respeitamos.
Nessa quarta-feira última, senhora distinta, vestida de preto em roupas casuais, oclinhos tartaruga, queria lugar no meio do tango. As atendentes lamentaram, não havia (mesmo em dia de jogo e sem dispor de televisão, o boteco vive cheio) posto no interior do bar. Por isso, a senhora disse em alto e bom som: "então eu vou para outro bar!" E saiu porta afora.
Aliás, notamos que havia senhoras solitas em um número de três, no bar: uma, mais jovem, parecia esperar alguém que não veio, ao cabo de nossa estada ali; outra, de mais de 60 anos, uma touquinha azul, vibrava com cada acorde dos tangos, sorria aos outros frequentadores, puxava papo, tomava a cervejinha; outra ainda, de uns 40 e poucos, jaqueta de couro e cabelo escovinha bem vermelho, tomava uma cerveja no balco e ouvia o tango maravilhada, sempre sorrindo e fazendo comentários com os convivas.
Mas minha amiga, sentada de frente para a porta, me chamou a atenção: "olha lá". Do lado de fora, a senhora de preto, encarangada de frio, esperava que vagasse uma mesa no interior do bar e no interior do som. Quando houve mesa, ela entrou e se instalou bem próxima ao epicentro da música linda. Na sua cara, uma invariável carranca era a impressão de um estado de espírito amargurado, solitário e que talvez dissesse: "eu sou assim e vocês não têm nada a ver com isso".
Tango após tango e a senhora não mudava a cara. Veio o sanduíche de queijo, rúcula e tomate seco, uma Bohemia long-neck e as feições eram as mesmas. Ela olhava para os lados, carrancuda, molhando o pão no azeite do prato, mastigando e afrontando, com uma sobrancelha levantada, quem cruzava olhares com ela: "eu sou assim e vocês não se metam na minha vida", dizia com os olhos verdes. Ela mastigava como se o sanduíche fosse de jiló.
Até que o duo tangueiro mudou o repertório e atacou com "Carinhoso". Todos os carinhosos, irmanados, se puseram a cantar. Minha amiga se empolgou e fez coro com voz empostada.
E lá, sozinha na mesa, a garrafinha long-neck vazia, a velha de preto não emitia voz mas movia os lábios, que diziam: "Vem, vem, vem, vem... vem sentir o calor dos lábios meus à procura dos teus. Vem matar essa paixão que me devora o coração! E só assim, então, serei feliz. Bem feliz!"

Sexta-feira, Julho 03, 2009

Sonrisal

Morreu a Pina Bausch mas o povo deu mesmo atenção ao Michael Jackson (e um pouquinho, convenhamos, à Farrah Fawcett). A coreógrafa alemã não fazia plástica, não mudava a cor da pele, não era acusada de comer criancinhas, então não teve relevância o suficiente para mais que umas notícias pingadas. Na verdade, umas notícias pingadas está até bem. O que enche os pacovás é a overdose que a cobertura da morte de MJ nos impõe, não bastasse a overdose de remédios a que o artista se submetia.

Pensando bem, essa é a era da overdose. Prefiro o comedimento da cobertura de Pina Bausch, já basta.


Muito obrigada pela atenção dispensada e bom fim de semana aos meus 2 1/2 leitores. :-)

Sábado, Junho 20, 2009

Justificativas

É uma vontade de nada dizer com a consciência de que tenho tanto a dizer, mas fora daqui. Em outras linhas e entrelinhas, com outros parágrafos em espaço 1,5.
Ou então articular, com língua e dentes e palatos duro e mole, a pronúncia das palavras. Aproveitar que o dia é de sol que, com esperança, secará toda a umidade da semana-brejo, abrindo as janelas, estendendo as roupas, pegando a bicicleta de pneu traseiro vazio e se entregando à realidade, seja ela suburbana, metropolitana, tenha ela luzes, sons, pessoas ou mobiliário. É Porto Alegre quase inverno e não faz frio. Nem em mim, nem em lugar nenhum da cidade.

Segunda-feira, Junho 08, 2009

Antes da internet

Era como eu passava algumas noites há vinte anos atrás, numa cidade de médio porte, no silêncio gelado da cozinha, onde o som do rádio tinha mais eco e presença. Era assim que o mundo, sempre estranho, chegava aos meus sentidos e me fazia sonhar em alcançar o que hoje eu (penso que) tenho nas mãos.

Segunda-feira, Maio 25, 2009

Cute creepy

Virei fã da bandinha da Zooey Deschanel.