sexta-feira, junho 19, 2015

Meu frame favorito


segunda-feira, outubro 27, 2014

Viciada em fanfic: Carol e Therese depois do fim


Todo esse post é um alerta de spoiler para quem não leu o livro "Carol", da Patricia Highsmith. Mas se você não leu, leia (tem um livrinho de bolso bem acessível pela L&PM)! Ou vá adiante mesmo assim.

Elas ficam juntas no final, ok, mas ninguém sabe o que vem depois disso. Embora eu seja otimista em achar que elas ficarão juntas para sempre, não quer dizer que elas não tenham de enfrentar momentos difíceis e questionamentos graves. Ainda mais sendo lésbicas no armário que se conhecem nos anos 50 nos Estados Unidos.

A fanfic também se baseia no que já há de informações sobre Carol, o filme: nele, a personagem Therese Belivet é uma fotógrafa novata, e não uma cenógrafa. O trecho abaixo, portanto, retrata a vida de ambas 10 anos depois do fim da história.



Fan fiction - Carol/The Price of Salt - Carol e Therese dez anos depois
Por Lívia Araújo

Carol não chegou a entender como Abby soubera. Mas de alguma maneira, Harge sempre fazia chegar a seu conhecimento as notícias que lhe eram convenientes. O fato é que Rindy dissera, em seu primeiro dia de caloura na escola particular em New Jersey, que era órfã de mãe. Therese estava em viagem, pela revista, e Carol ainda não havia conseguido conversar com ela a respeito.
Doía demais. Era uma escolha de sua filha, agora jovem, com seus anseios adolescentes, querendo ser incluída e aceita em seu novo grupo de amigos. É possível que daqui a alguns anos ela se arrependa, pensou Carol, refletindo que, se isso acontecesse, talvez fosse mais por Rindy não ter sido sincera consigo mesma pelo fato de ter uma mãe “desviada”, do que por esse desvio, na verdade, não existir de fato, ou por ter dado ouvidos a uma família parcial. Para a própria Carol, aceitar a si mesma e sua impotência perante esses fatos já era um processo longo, sofrido, e caro. Para Rindy, com sua idade imatura e tendo em volta a família Aird, abastada em termos materiais mas medíocre em evolução social, superar a revolta, a rejeição e questionar dogmas parecia incontornável.        
Mas, de qualquer forma, a vida não era insustentável. Ela tinha quase o que podia chamar de um toque de Midas para os negócios e isso não atrapalhava em nada. Abby e ela se uniram novamente, com fins comerciais, e reabriram sua loja de móveis, agora com peças originais. O capital inicial veio da família de Abby, mas esta não a tratava como uma sócia minoritária. A amiga projetava as peças, e ela ia atrás de compradores. Certamente Harge já havia sentado em uma de suas poltronas sem saber, porque elas forneciam basicamente para escritórios e hotéis em Manhattan. Já cuidavam de cerca de 10 funcionários, que trabalhavam em um galpão em Washington Heights.
Essa nova fase de prosperidade não permitia luxos, de qualquer forma. O divórcio, para ela, foi como um período de guerra não só no âmbito familiar, mas também porque trouxe óbvias dificuldades financeiras para alguém acostumada a viver naquele padrão despreocupado de dona de casa. O despojamento de Therese fora útil, portanto; sua sobriedade era milagrosa.
A extravagância prioritária daqueles dias era ir ao consultório de um psicanalista assaz renomado. Fora um colega de Therese, Dannie, que o indicara. Duas vezes por semana ela se deitava no divã sem ver o rosto do homem e dizia, sem o temor do julgamento, coisas que moravam nos cantos escuros da sua existência.
O fascinante é que a psicanálise lhe mostrava a ironia daquilo tudo. Deu-se conta, ainda ontem, de que o que acontecia com Rindy era muito parecido com a maneira como Therese narrara os dissabores vividos com sua própria mãe. Em como ela tinha aquela allure de órfãzinha, quando contou que sua mãe a enviara ao colégio interno ao se casar com Nicholas Strully. Como ela se sentiu preterida em relação ao marido da mãe, que era uma espécie de rival ao amor que ela não recebera. E agora Rindy sentia o peso de uma rejeição parecida, porque Carol desistira dela – era assim que as circunstâncias fizeram parecer - para viver com uma garota não tão mais velha que ela, um ultraje inominável que lhe dava a marca de um desvio incurável. Doía, e embora ela soubesse que isso não era culpa nem de Rindy, nem de Therese, suas lágrimas caíam abundantes.
Era de tarde, e ela olhava fotos velhas e novas de Therese, sentada no sofá da sala. Algumas eram fotos de sua primeira viagem, quando dera a ela a câmera nova em folha, sem suspeitar que, como com a Leica de Cartier Bresson, haveria mágica a ser feita com ela. Viu-se em imagens feitas por Therese em suas paradas ao longo da estrada. Via a si mesma naquele inverno de 1952, vestindo seu mink em gestos triviais. E via amor ali, observando a si mesma através dos olhos de Therese. De suas lentes. Outras fotos, ainda melhores e mais equilibradas em suas luzes e sombras, vieram ao longo daqueles dez anos. Therese não era mais uma menina. Era uma mulher ainda jovem, de quase 30 anos, mas já uma arguta observadora da vida cotidiana. Seus retratos de gente simples, de todo o país, vivendo vidas ordinárias e suburbanas, ganharam páginas de revistas de grande circulação. E, ainda assim, para Carol, suas melhores fotos tinham sido as primeiras, produzidas em seu primeiro jorro criativo, com uma capacidade ainda bruta de captar o essencial.
A porta se abriu, e por ela entrou Therese, carregada de uma valise – ainda aquela valise -, além de todo o material fotográfico, e um casaco pesado. Quando ela viu Carol secando as lágrimas, largou tudo no chão e foi ao seu encontro.
- O que aconteceu, querida? – ela perguntou, agachando-se na frente do sofá para afastar os cabelos de Carol e limpar as lágrimas de seu rosto avermelhado.
- É Rindy, Therese. Abby ficou sabendo que ela contou aos colegas, em sua primeira semana de caloura, que é órfã de mãe. – E, com isso, Carol voltou a chorar, inconsolável.
- Oh, meu bem. Que droga.
Therese a abraçou forte, por um tempo longo, sentindo os soluços de Carol em seu ombro.
- Deixe que eu cuido de você.
As malas e o casaco ficaram na entrada do apartamento. Therese levou Carol para o quarto, deitou-a na cama delas, e correu à cozinha para preparar o Earl Grey de que Carol gostava. Voltou com a xícara fumegante, uns biscoitinhos, e os deu para Carol enquanto se despia e colocava o tipo de roupa surrada e macia que era como a trégua das semanas intensas de trabalho.
- Estou aqui. Precisava deixar uma caixa cheia de negativos na redação, mas não vou mais. Vou passar o resto da tarde com você – Therese disse, enquanto se sentava na cama, na frente de Carol, tomando dela a xícara de chá quase vazia, e pousando-a na mesa de cabeceira. Deu-lhe beijos leves: na testa, nas sardas da parte mais alta de seu nariz, em seu queixo... e, tal como sempre, esse contato amado e conhecido guardava um resquício do primeiro beijo delas no quarto do hotel em Waterloo, quando ambas tiveram a coragem irreversível de confessar o inconfessável. Então Carol buscou sua boca e a beijou em um impulso quase desesperado, enquanto novas lágrimas caíam. Therese correspondeu ao beijo mas, cheia de placidez, foi desacelerando e voltando ao pequeno e leve contato entre as línguas e os lábios. Depois pousou seu rosto no pescoço de Carol, afundando-se naquela porção cálida de pele, sentindo seu perfume tão familiar, como se só naquele momento estivesse chegando em casa. E, nesse movimento, nesse encaixe exato de amores que se pertenciam, Carol relembrava sua história.
- Você não sabe que eu te amo? – Carol falou, como na primeira vez.
- Eu sei. Eu sei, sim.


sexta-feira, outubro 24, 2014

Mais fanfic: Carol e Abby discutem sobre Therese

imagem: Joe Wessels

Outra fanfic (estou adorando o processo!) alusiva ao livro de Patricia Highsmith, Carol. Esta e Abby Gerhardt são melhores amigas - e o trecho abaixo, imaginado, traz um diálogo em que ambas conversam sobre a possibilidade de Carol levar Therese em uma viagem. Ao contrário do trecho anterior, que foi um "abrasileiramento" da histórica, essa segue a trama original e tenta manter o clima da história. No cinema, Carol e Abby vão ser vividas por Cate Blanchett e Sarah Paulson, conforme essas fotos do set de filmagem.

Fan fiction - de Carol/The Price of Salt - Patricia Highsmith
escrita por Lívia A.

Carol e Abby discutem sobre Therese Belivet

A freada do carro conversível no cascalho quase provocou um acidente, que certamente acertaria um dos corrimões laterais da entrada da casa.
- Ô, de casa!

Era Abby. Claro. Ela ficou uns dois minutos batendo à porta da frente antes de simplesmente dar a volta e encontrar Carol na beirada da porta da cozinha, chupando o gelo do copo de scotch, às duas da tarde. Florence, a empregada, não estava.
- Ei, por que você não disse que estava aqui e me deixou lá na frente gritando? - espinafrou Abby.
- Eu queria ver quando tempo você ia levar para se dar conta de que eu estava onde sempre estou, Abigail.
- Abigail… - Abigail debochou - Você só me chama assim quando…
- Quando…
- … quando… Ok. Você já adivinhou. Sim, eu fui almoçar com sua Terry. Sabia que ela me delatar, claro.
- Ela não é “minha” Terry, Abigail. - Carol respondeu com olhar reprovador.
- Olha, querida, pois não é o que parece. Eu disse, porque sei que é verdade, que você gosta muito dela. Mas eu vi o mesmo ali, sabe? Ela gosta muito de você. Ela parece uma adolescente apaixonada… oh, espere! Ela é uma adolescente apaixonada! - Abby enfatizou o “é”.
- Abby, você sabe quando começa a me irritar.
- A sério, Carol. Meu medo - e eu tenho quase certeza de que isso pode acontecer - é só que ela te desaponte. Ela não tem fibra para sustentar qualquer postura, caso se sinta acuada. E quase nem é culpa dela, é só que ela é tão nova...

Carol lhe respondeu com seu incofundível e resignado olhar de “eu sei”.
- Fazer o quê, né, Abby?

Abby tentou mudar de assunto, e conseguiu.
- Escuta, onde eu consigo um pouco desse scotch glorioso que você estava bebendo, hmm?
- Você sabe onde. Mentira. Peguei do barzinho do Harge, na verdade. - respondeu Carol, com uma piscadela.
- No caso, a vingança é um copo servido on the rocks. Contudo, dear, já que é do Harge, eu vou tomar o meu a cowboy, que é para aproveitar a oferta.

Carol fez um gesto de brinde com o copo onde só havia sobrado o gelo, e que ela resolveu não repor. E a própria Abby retomou o assunto, enchendo o copo com o uísque 18 anos do, er, compadre, presente anual da “firma”.

- Vai acontecer, não vai? - Abby perguntou, dando seu primeiro gole do dia e franzindo a cara com a intensidade da bebida.
- Eu não sei. Eu tenho a imptressão de que é o que ela quer, você não achou?
- Achei, sim. Mas é o que você quer?
- Você ficaria com ciúmes? - Carol provocou.
- Do que adiantaria, não? O que era nosso já passou. Parece que foi ontem, de fato. Passou. Mas responda: é o que você quer? - Abby insistiu, disposta a obter uma resposta que não só sanasse sua dúvida quanto servisse de salvo-conduto para ela seguir, finalmente, sua própria vida, ainda que um pedaço sempre fique para trás.

Carol silenciou por uns segundos. E, por fim, admitiu:

- Sim, é o que eu quero.
- Você se apaixonou pela pequena, então.
- Sim, Abigail, eu me apaixonei pela pequena. Ela é uma graça, Abby. Aquela fragilidade e insegurança, que ao mesmo tempo me dão a sensação de que ela, sim, mataria Golias com uma funda. E o jeito como ela me olha. Harge nunca me olhou assim.
- Foi por isso que você lhe deu aquela Canon caríssima? E é por isso que a está levando para a estrada?
- Sim. E sim. - Carol quase perdeu o fôlego, falando da garota. Ela parecia exasperada, quase sofrida de amor. Com Abby, e só com ela, Carol podia se abrir e se expressar exatamente como se sentia. Com Therese, essa fase ela ainda não alcançara. E prosseguiu:
- Eu preciso… preciso que aconteça longe daqui, de Rindy, de Harge, daquela família horrorosa. Entende?
- Ok, então - disse Abby.
- Ok? Você aprova? Estou liberada para satisfazer meus desejos? - Carol ironizou, dando uma cutucada no braço de Abby.
- Está, querida. Liberada, abençoada e… lascada.

- É - E, de novo, Carol lançou aquele olhar de profunda resignação.



quarta-feira, outubro 22, 2014

Fan fiction para The Price of Salt/Carol

Fan-fiction é novidade para mim. Mas tem um livro que adoro, chamado Carol, lançado em 1952 pela Patricia Highsmith. É uma obra "apócrifa" dela, por falar abertamente de uma história de amor homossexual. O tema, na época, ficava relegado aos "pulp fictions" que nunca tinham final feliz - pelo menos para o casal em questão. É provavelmente por isso que ele foi lançado sob o pseudônimo Claire Morgan. O nome original era "The Price of Salt".
Atualmente, a história foi adaptada para o cinema, e está previsto para o ano que vem o lançamento do filme Carol, cuja personagem título será intepretada pela Cate Blanchett. A outra personagem principal, Therese Belivet, está a cargo da atriz Rooney Mara.
Como faço parte de um fórum de discussão sobre o filme e o livro (que tem uma seção em português), resolvi me aventurar por escrever um trecho com a minha própria versão do romance - e abrasileirei as personagens e as circunstâncias. Mesmo com as diferenças, os personagens são os mesmos e as circunstâncias também.
E, se depender de mim, pelo menos nesse blog, gays sempre terão final feliz.

Carolina tinha sido a onda inesperada que varrera, em pleno Natal, toda a enorme seção de brinquedos do Mappin. O que era Teresa além de uma vendedora que tinha, diariamente, de tomar seu bonde até a Vila Mariana e conviver com os olhares estranhos da vizinhança, porque cometia a ousadia de morar sozinha naquela pensão? A existência de Ricardo, em sua vida, tornava-se duvidosa; ele se tornou um estranho no momento em que seu olhar cruzou o de Carolina, e elas se falaram, e quando a própria Tereza viu-se no esforço de decorar o endereço de entrega da boneca, no Higienópolis. A ousadia dos artistas. Que fosse, desde o começo, o que tivesse de ser.

Com Carolina dormindo, deitada a seu lado num quarto de hotel numa cidade em que nunca pensou que visitasse, Congonhas do Campo, Minas Gerais, ela se sentia como uma entidade imaginária; alguém que, pelo ponto que alcançou na escala de possibilidades existenciais, não pertencia mais àquela vida ordinária.

Ela não se sentia suja, nem com o sexo, nem com Carolina, ao contrário do que tudo o que lhe haviam dito a respeito de intimidades. O que ela sentira no contato com o corpo amado fora sublime. Sabia que Ricardo, nem ninguém, nem mesmo outra mulher, fariam-na sentir o mesmo. Olhando o corpo nu de Carolina na cama do quarto do hotel, o que ela experimentou foi enlevo. E, ao mesmo tempo, um medo colossal. De ser obrigada a renunciar o que quer que fosse, tanto àquilo quanto a qualquer coisa que houvesse de bom na vida até então. Ou simplesmente conviver com a marginalidade pela qual já lhe tomavam por frequentar a trupe de atores, por ser a faz-tudo dos bastidores do Tuca. Mas ela queria aprender tudo o que a vida pudesse lhe ensinar.

Carolina abriu os olhos a seu lado, e viu Teresa ensimesmada e pensativa; deteve-se por um segundo olhando o vinco que se formava entre as suas sobrancelhas, e chegou a achar graça de sua aparente preocupação. Ela estava de lado, e pousou sua mão, suavemente, na barriga de Teresa.

- Minha querida... o que foi? – ela sorriu preguiçosa, os olhos ainda cheios de sono.
- Nada. Não é nada. – respondeu Teresa, com o primeiro sorriso testemunhado daquela manhã. – Ei. Ontem à noite, quando chegamos, eu mal vi onde é aqui.
- É Congonhas do Campo. Cheio de obras de Aleijadinho para vermos.
- Talvez ele me dê alguma ideia para um cenário.
- Você quer cenário melhor que este? – Carolina falou, com uma piscadinha marota.
- Esse cenário eternizado em pedra sabão. Eu nunca vou esquecer dele. Só esqueci, praticamente, como a gente chegou até aqui – e levantou-se para apanhar o mapa rodoviário no criado-mudo ao lado da cama. Carolina se divertiu com esse jeito exato de Teresa, parecendo uma boa aluna aplicada.
- Que engraçada é você, Tetê.
- Por quê? – sorriu-lhe a amante.
- Parece caída do espaço.

segunda-feira, outubro 13, 2014

Stranger


Aquele momento em que uma pessoa está só. Seja na morte (própria ou a que se inflige ao outro), seja na transitoriedade e na partida, quando a incerteza do próximo passo a põe exposta pela própria fragilidade. E, por isso, fica à mercê de um outro, aterrorizada pela iminência do crime, pela impotência de não poder impedi-lo. Como um pesadelo odioso. Como a vida.

sexta-feira, setembro 13, 2013

Soprar o pó e bater os tapetes

Atchim!

Respeito o direito autoral e o ineditismo (de modo que não postarei a imagem alheia que está em meu poder) mas, nessa semana, vi algo que restaurou a minha fé na... que restaurou minha fé. Era a foto de  um figo. A composição era tão perfeita, que me lembrou aquelas naturezas mortas, com textura de renascença, mas principalmente a luz. E as sombras.

Falando em renascimento, estou grávida. A matrioshka que sou está grávida de outra matrioshka que serei. A culpa é da Marina Lima. Ela também engravidou um rapaz que conheci na fila do concerto que ela deu em Porto Alegre na semana passada e que reclamou a autoria da maternidade dupla, dele e da diva.

Eu não reclamo nada. Não vou pedir pensão, registro em cartório, visita dominical. Vou cuidar sozinha dessa criança que se avoluma. Há muito tempo estou louca, lou-ca, para dar à luz os pensamentos concebidos, burilados, costurados entre as fendas, poucas, que consigo rasgar na rotina.

Então recorro a este blog abandonado e anacrônico pra desnudar essas bobagens por cuja aprovação e chancela públicas eu anseio.


sábado, novembro 06, 2010

Salento

Um escuro qualquer, de penumbra e sonho. A palavra como tijolo na construção de um vestíbulo anímico. Deus e a transcendência, Deus e o momento da pele. Um segredo de náilon ao pé do ouvido.

Rumoreja uma praia nos pêlos dos meus braços, o mar avançando na planície do dorso, o torso, retorcido, uma erupção caminhando na nuca e a preguiça do suor adormecido.

Os olhares prismados nas policromias do ambiente, a luz tênue de uma lâmpada fraca. Uma piscina de tecido, nadando em humores. Lavanderia, represa.

sábado, abril 17, 2010

Não é para entender, mesmo

"Nuvem de carinho" pode ser um artifício criado para que alguém que, em fingindo que cuida, que zela, que olha, na verdade se protege de viver de maneira diferente à vida que seus fantasmas lhe sugeriram como uma voz de esquizofrenia.

sexta-feira, abril 16, 2010

Helicoidal 2 - DNA é carma

Que bom que eu disse tudo isso aí embaixo. Agora vou me ali me vomitar, me virar do avesso, e já volto.

Helicoidal

A coisa nunca tem muito motivo para acontecer. Tudo é resplandecente, solar e lânguido, a gente se entrega a um hedonismo onde o amante é objeto e veículo e, aí, um dia, a coisa (você veja que o que quer que seja a "coisa": amor, paixão, putaria, ela é sempre um amálgama confuso que não temos coragem de nomear) acaba com o fogo ainda aceso, algumas vezes porque a gente se deixa engolfar pela covardia do roteirinho adaptado, quando é só com um original que a gente sabe que vai ganhar o Oscarzinho pelado. De inho em inho, a mediocridade do drama pessoal mata o amor, quando o amor deveria trucidar o drama pessoal, devorando tudo o que encontra até que não sobre mais nada. O pior é que o que sobra, sobrevive e continua esperando ser devorado em quatro terços até não sobrar nada mais que um átomo do que a gente já tinha sido.

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

Desenvolvendo músculos

Coordeno um sistema de navegação atrelado a asas invisíveis, que demandam grande esforço dos meus ombros. Pego impulso e estou no ar, agitando meus membros e tentando tomar a direção certa. Na verdade o voo é meu meio de transporte na rotina de todas as manhãs, batendo asas, voando tranças.

segunda-feira, fevereiro 15, 2010

Post esparso

Uns pinguinhos de chuva que conseguiram tornar o verão, por um único momento talvez, algo que não exponha tanto. Não tanto as peles, mas que consiga fazer o tanto de sol e umidade se aquietar nos poros. Ao mesmo tempo o que é interno vem à tona e faz com que a vida ande mais um ponteiro e mude um pouco mais.
Mas isso é o automatismo da individualidade, é a ilusão de ser mais que um autômato que a natureza controla, travestindo-se da ilusão de que um dia a pudemos controlar.

segunda-feira, dezembro 07, 2009

O cinema e a educação sentimental

Não no ostracismo, mas em parte cultivando um certo isolamento, o cinema tem me proporcionado, em poucos dias, mostras das emoções humanas que têm dialogado com o que eu tenho experimentado nos últimos anos. Claro que, dentre estes, assisti algumas porcarias (tipo Jean-Claude Brisseau, que pra mim revisita a pornochanchada mas sem o charme do David Cardoso), mas, no balanço, a franca fraqueza humana presente nos seguintes filmes nem me deixou entristecida, ainda que não tenha restabelecido minha fé na humanidade. O resumo da ópera, inclusive olhando para my own-private umbigo, é esperança.
- Amantes
Os protagonistas do filme, personagens do Joaquin Phoenix da Gwyneth Paltrow, são geradores espontâneos de vergonha alheia e, por isso mesmo, tão verdadeiros. Mas o heroi perdidão e crianção tem a sorte de, mesmo confuso na rede de uma paixão vã, mesmo inflamado daquele desejo que só sabemos inútil depois que ele passa, estar cercado de amor. Um amor sem muitos estardalhaços, mas, ao mesmo tempo, o melhor deles. O tipo de amor "Stand by Me", que é o que a gente menos tem hoje em dia, mas que ainda não aprendeu a valorizar.
- 500 dias com ela
O mocinho é fofinho, a mocinha é fofinha, o filme todo é fofinho mas nem por isso a coisa toda é de se jogar fora. Porque é assim mesmo. A gente acha tudo fofo e ensolarado quando ama. A gente acha que tudo é esplendor e aurora, quando não passa de um ocaso que não serve só para nos deixar arrasados e de pijama o dia todo. O pulo do gato está em usar esse ocaso para abandonar nossos resíduos e partir para outra. Não outro amor, só uma nova visão das coisas.
- O Casamento de Rachel
Fui ver ontem à noite (domingo), já sabendo que o filme é pesado, tem climão e que ia acabar com a minha semana. Mas oh, não. Todo aquele constrangimento, aquele sofrimento, aquele passado regurgitado só foram para mim expressão de um desejo intenso de melhora. Não existe transformação sem dor (os ossos doem, a dilatação do canal vaginal doi, o peeling doi, a vertigem ao atravessar uma ponte é arriscada e desconfortável) e amor sem a incompreensão abarcada. Ademais, o vertiginoso feriadão matrimonial de Kym, irmã da noiva, marcou seu processo ultraconcentrado de evolução, que consegue deixar de lado algumas das suas culpas para investigar o passado com mais franqueza e tendo a coragem de expressar uma mágoa muito justa, apesar de todas os erros gravíssimos que ela cometeu.

terça-feira, outubro 13, 2009

O sexo é o tinteiro

Penso nas fibras, nos músculos das pernas, rijas, sustentando tudo. Penso nos braços fortes, mas permitindo-se a floreios e passeios pelo ar. O tronco é um eixo e um leito. A cabeça uma fonte, a língua, uma pena de tinta viscosa a escrever no livro de cabeceira.

quinta-feira, outubro 01, 2009

Diálogo natural

Eu finjo que não tenho coragem de escrever sobre o que existe aqui dentro. É que o dentro continua introspectivo, absorvendo o que há fora. Olhando pela janela do prédio imponente e me inspirando da água do lago, cheio de chuva, dos barcos, dos cães à beira do cais, das garças inertes às popas das embarcações; cumprimentando cães na minha língua de conversar com bichos; assoviando passarinhagens; coçando a barriga do gato; regando o manjericão em flor.

domingo, setembro 27, 2009

O surrealismo do dia-a-dia

Achei de uma beleza magritteana a madrugada de ontem, na qual chovia cântaros e trovejava em 70% do céu. Nos outros 30, estava limpo e havia estrelas. Na porção fartamente nebulosa do firmamento (acho linda a palavra firmamento, como se fosse toda a imensidão acima de nós o que sustenta a solidez disso aqui onde estamos - e é, levando em conta os outros planetas e a gravidade que rege tudo isso), uma nuvem mais baixa, iluminada pela luz amarelada da cidade tinha, durante alguns minutos antes de se dissipar, a exata forma do mapa da Europa, com península ibérica, a costa da França, a Escandinávia e até a botinha da Itália, se estendendo numa massa maior de nuvens onde eu localizei a Rússia. Só faltaram as Ilhas Britânicas, mas aí seria pedir demais.
A minha esperança, portanto, era de que fizesse sol hoje de manhã, mas os 70% de chuva, trovões e relâmpagos venceu o buraco estrelado. Mas atrás, está o céu azul e, mais tarde, as mesmas estrelas. É por isso que um dia nublado nunca é a realidade da vida. É só um véu cinzento que mal e mal cobre o sol da existência.

quinta-feira, setembro 10, 2009

A Dor é o que ela nos faz sentir

Dominique Blanc nos agarra pelas entranhas e dá à luz, através da plateia, a dor da espera e a dor da chegada e a dor de não reconhecer o que nos é caro. A dor de admitir que, mesmo no papel de quem atravessa, com certa sanidade, anos de privação, são esses os que padecem da demência de não reconhecer o avesso que a guerra torna nossos mais íntimos semelhantes.
Dominique Blanc é quem sustenta e desenvolve o monólogo “La Douleur”, dirigido por Patrice Chéreau, adaptado do livro homônimo de Marguerite Duras e levado ao palco do Porto Alegre em Cena neste ano de 2009. A atriz francesa nos traz, aos dias de hoje, o angustiante e apoteótico ano de 1945, em que as tropas alemãs sucumbiam de cidade em cidade, cada uma delas liberada pelos soldados aliados, em um trabalho doloroso e paciente, amparados, em porões esperançosos e nas ondas do rádio crivadas por mensagens cifradas pelos herois da Resistência.
Ela nos entrega, à plateia, um livro inteiro (ainda que curto), distribuído em seu gestual e dividido em duas partes: primeiro, a longa e angustiante espera por seu marido Robert L., sempre amparada pelo amigo - e, talvez, amante – D., que dura dias insuportáveis ao longo da libertação de cada campo de concentração e da chegada dos trens de prisioneiros deportados que nunca trazem o marido que ela crê morto; depois, o resgate preciso e urgente de Robert L., que retorna a Paris, fazendo toda a angústia culminar num sentimento aterrador que invade sua esposa e seu amigo, dado pelo relacionamento com alguém que já não é, com alguém que se reconstitui, aos poucos, calcado nos fundamentos abalados de seus próprios escombros.
Diante do farrapo humano, como não se reduzir, também se neutralizar? A partir do farrapo humano em cujos olhos enormes nos espelhamos, e mesmo em cujos excrementos depositamos nossas maiores expectativas, é possível nos reconstruirmos a partir daquele zero que é só esperança, que é a pura busca pela reexistência e pelo renascimento. 1945 nos faz encarar o presente, porque, mesmo espelhados nos olhos arregalados dos homens e mulheres que sobreviveram aos campos de concentração com apenas um fio de vida, nos fortalecemos só para repetirmos as mesmas atrocidades nos confins mais variados do mundo, mas também nos centros da civilização, que sempre estará em ruínas e sempre se reconstruirá para beber mais sangue, ao mesmo tempo em que paixões se desenrolam, enquanto amamos e sentimos que amanhã poderá ser melhor.

quarta-feira, setembro 02, 2009

Desabafo umbiguista

Raiva, raiva, raiva. Da mediocridade e mesquinharia alheias, sem esquecer da minha própria mediocridade e mesquinharia, que não vou dizer que não as tenho e não as pratico. É raiva da incapacidade crescente de relacionamento que o umbiguismo gerou entre os seres humanos, e que me contamina, também.
É só raiva, que passa. E, post inútil, é prova de que esse blog anda com o propósito meio perdido e pode virar uma ruína, que o tempo vai se encarregando de fazer sumir.

sábado, agosto 15, 2009

Spinning Round

Quando a gente se põe a girar, o mundo passa a girar junto?

quarta-feira, agosto 05, 2009

Sound machine Dreamlog

Sonhei que um dos conhecidos colunistas sociais da cidade era uma mulher alta e implacável, com trejeitos de bicha quá-quá. Ele(a) tinha uma filha sempre arrumadinha, que gostava de destratar e maltratar, além de chamar todo mundo de f.d.p. para baixo. Mas sempre muito elegante, chapelão à la Jóquei Clube, e tal.
Sonhei também que na aula de italiano havia todo tipo de assunto, menos lição de italiano. E, apesar da diversão, eu estava irritada pela subversão do conteúdo e da professora, que era um homem, divertido como ela. Mas um homem.
Por fim, ao sair da aula de italiano, fui com meu irmão mais novo a uma loja de música. Cheia, abarrotada de discos de vinil novinhos. Todos a preços módicos (R$ 8,50 a R$ 10,00), todos incríveis, de jazz e rock. Meu irmão pegou um ao gosto dele. Eu ficava manuseando Beatles, Pink Floyd, e revivi a maravilha de segurar o Atom Heart Mother (com uma vaca na capa), do Pink Floyd. Mas fiquei triste de repente, me dando conta de que eu não tinha equipamento para tocar o disco. A vendedora tentava me estimular: "mas você não tem vitrola"? "Tenho, até, mas não funciona mais" (pensando numa vitrola da Telefunken que havia na casa dos meus pais). "E por quê, você sabe"?, me perguntou a vendedora. "Não sei. Talvez precise trocar a agulha"...