domingo, outubro 22, 2006

Lyncheana

O forró tocava e as pessoas estavam animadas. Mais de vinte ou quase trinta, a maioria era membro de uma mesma família liderada por uma velha matriarca pernambucana, que em verdade parecia uma tartaruga esgruvinhada, vestindo uma saia de crente que lhe vinha até os peitos, os cabelos longos presos num rabo de cavalo que lhe chegava até à bunda.

Uma de suas filhas vivia em uma mansão num bairro nobre, mulher-escrava de um tenente da reserva, dono de uma rede de casas lotéricas. Na mansão, entre os sofás de couro e os móveis de madeira de lei, passeava uma cabra e algumas galinhas. A vivenda da matriarca, porém, era em um casebre de madeira cheio de frestas misteriosas por onde escapava o som da música alegre.

Deslocada, ali estava uma menina de seis anos que, de olhos bem arregalados, absorvia em uma só onda o forró, a mistura do cheiro do churrasco, dos homens de cheiro forte, das mulheres de perfume barato, das crianças com rosto sujo de chocolate e groselha e a luz de lâmpada amarela, fraca e estranha. Ela deteve seu olhar na fonte da música: uma eletrola antiga, dos anos 50. Um móvel compacto, com um tampo que guardava o prato da vitrola. Ao abrir o tampo, à altura de sua cabeça, ela viu o inesperado: em cima do disco de vinil, girando em 33 rpm, havia um enorme besouro de casca vermelha, que parecia um anel de rubi a seguir o ritmo do forró.

2 comentários:

Cinara disse...

Nada melhor do que ouvir forró numa eletrola dos anos 50. Bem, tem coisas melhores. Tirando as cabras, é claro.
Beijinhos

Júlia disse...

A sordidez de certos cenários às vezes se revelam de forma poética para quem tem olhos e ouvidos sensíveis.

Muito lindo, Adorei!

Júlia