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segunda-feira, fevereiro 15, 2010

Post esparso

Uns pinguinhos de chuva que conseguiram tornar o verão, por um único momento talvez, algo que não exponha tanto. Não tanto as peles, mas que consiga fazer o tanto de sol e umidade se aquietar nos poros. Ao mesmo tempo o que é interno vem à tona e faz com que a vida ande mais um ponteiro e mude um pouco mais.
Mas isso é o automatismo da individualidade, é a ilusão de ser mais que um autômato que a natureza controla, travestindo-se da ilusão de que um dia a pudemos controlar.

sábado, junho 20, 2009

Justificativas

É uma vontade de nada dizer com a consciência de que tenho tanto a dizer, mas fora daqui. Em outras linhas e entrelinhas, com outros parágrafos em espaço 1,5.
Ou então articular, com língua e dentes e palatos duro e mole, a pronúncia das palavras. Aproveitar que o dia é de sol que, com esperança, secará toda a umidade da semana-brejo, abrindo as janelas, estendendo as roupas, pegando a bicicleta de pneu traseiro vazio e se entregando à realidade, seja ela suburbana, metropolitana, tenha ela luzes, sons, pessoas ou mobiliário. É Porto Alegre quase inverno e não faz frio. Nem em mim, nem em lugar nenhum da cidade.

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Hard news

Derramei uma só lágrima: as outras que não derramo, talvez seja porque não foram suficientemente elaboradas. Porque derramar uma outra, ou outras, seria um desperdício. Eu não saberia porque exatamente o estaria fazendo. Então é uma lágrima pela angústia de não saber um porquê, nem um quando, nem um onde, nem um quem...
É uma lágrima pela falta que um lead me faz.

terça-feira, fevereiro 10, 2009

Revolta Ortográphica


A môça modernna libertha-se de tôdas as convenções viggentes para lançar-se à concupiscência que bhrota do chaos lingüístico.

Imiscuhida de tôda bôa inthenção que m'e sói comummente, tenho por concluído que a soi-disant Rephorma Ortográphica não contempla tôdos os âmbitos da sociedade, na cual, appesar d'a apparente dissonância, esta que vos phala se phaz presente. Sendo assim, dama ciosa da condição que é d'ella, faço proposição de sair d'o lado de minha máchina de coser e me phazer audita na chestão de que a orthographia pode, sim, comprazer-se na mais bella e flaghrante anarchia.
Se a innovação da maviosa entre-rede permite a co-existência gregárea das maes variadas communidades da linguagem (comprehendendo-se, ahí, o chamado miguschez e outras phormas suspeitas de auto-expressão phônica e gráphica), é límppido e certho que nos seja, às modernnas damas da sociedade - incluhindo desde a rapariga prolethária á plastiphicada senhôra de alto phoder achisitivo - relegado o direitho de expressarmo-nos como bêm chisermos.

Assinado: Club Sarah Bernardt de Molheres Revolutionáreas
(Livremente inspirada na Encyclopédia d'Imphormática de Mário Amaya)

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Deus não dá asa a cobra?

Hoje eu tive uma sensação estranha: a de voar por dentro. Não foi bom: foi desconfortável. A sensação, era, por segundos apenas, de não ter chão, de não ter nenhuma superfície onde me fixar, onde me segurar, e essa liberdade exacerbada, em lugar de me causar euforia, causou-me medo.
Nessa fração de segundo, ainda, eu busquei no passado um terreno firme. Não achei. O futuro, esse, desnecessário dizer que sequer é um terreno. Só restou o presente, um céu aberto do qual eu não caía, mas através do qual eu tenho medo de seguir.

quinta-feira, outubro 16, 2008

quarta-feira, outubro 08, 2008

As coisas como (não) são

É por isso que eu estimo muito este senhor.
Aliás, estou tentando convencer um colega do trabalho, mais afeito à literatura técnica, o quanto o sr. José Saramago pode fisgá-lo pelos olhos - justamente por eles - e fazê-lo apreciar suas histórias arrebatadoras. Daí ele passa na minha sala e eu pergunto se ele já viu o filme. Aliás, ele acabou de passar aqui, entusiasmado com a página do blog do Sr. Saramago que eu imprimi pra ele ler. Acho que conquistei mais um leitor - para alguém que realmente o mereça.
Depois das bicicletas, a leitura também está entre as minhas causas. :-)

terça-feira, outubro 07, 2008

Metafórica


"O Espelho", René Magritte

Caíram-me os butiás do bolso (fiquei atônita, estarrecida, no bom gauchês campeiro) na análise, ontem. Aliás, derrubar butiás é o maior mérito da terapia psicanalítica: ninguém é o mesmo depois de gerado tamanho sofrimento naquelas sessões e, de quebra, nos momentos subseqüentes (tipo esperando o ônibus, ou no meio do supermercado), as fichinhas vão caindo, como nos dessem mais créditos para continuar jogando no fliperama da vida. E, com sonhos ou sem sonhos, nossos dias e os gestos repetidos neles à exaustão são como pinturas - e seus diversos símbolos - muito mais fiéis à nossa imagem do que aquele reflexo enganador que vemos no espelho.

segunda-feira, setembro 29, 2008

Primeiro post primaveril

É bom começar a primavera ouvindo a Valsa das Flores de Tchaikovsky em Pleno Jardim Botânico. É tanta informação primaveril em uma só frase que o leitor pode enxergar tudo verde e ser assaltado por um cheiro repentino de mato e de flores. O fim de semana como uma ilha de frescor na vida atribulada. Sorrisos em conversas novas - e a vida sem álcool nos gestos, nem cigarro no ambiente público inauguram uma outra visão de mundo - e uma solidão doméstica que arejou todos os espaços. Quem gostou foi Mercúcio José: passou sábado e domingo praticamente inteiros entre o cochilo sob o sol e o sono pesado no colo da mãe - demasiado - humana.

terça-feira, setembro 23, 2008

Boa vida ao meio-dia


foto de Rodolpho Machado

Acho que um bom lugar para que um ser humano tenha momentos de descontração, alegria e contemplamento diante da vida é sob um caramanchão. Palavra bonita: CARAMANCHÃO. Ou, quanto mais o lugar se parecer com um jardim de inverno, melhor o almoço, o chá, o café, o cigarro e a companhia. Acho que até o Diabo (não era o caso) se tornaria bom parceiro de prosa.

quarta-feira, setembro 10, 2008

O que seria de mim?

E se o grande colisor de hádrons (aka acelerador de partículas) criasse o buraco negro que nos sugaria? Se me fosse permitido chegar do outro lado do buraco em forma outra que suco humano, eu talvez lá chegasse como a rainha de Sabá, como roadie do Jim Morrison (valha-me, Nossa Senhora!), como uma versão menos atormentada da amante de Auguste Rodin, ou como eu mesma, menos imersa em fantasias, menos tímida diante da beleza que prescinde de adornos, menos indecisa.
Vai ver a sensação de iminência, a agonia que tem me acometido, esse 'porvir' que faz cócegas no coração não seja o parto de mim mesma pelo qual passo de anos em anos, mas o funcionamento do Grande Colisor de Hádrons, uma máquina de nome grandioso que haveria de nos transformar em uma coisa nova - e de tantas coisas novas precisamos, talvez a partir de nós mesmos - ou então de nos varrer para todo o sempre desta face do universo.

segunda-feira, setembro 01, 2008

Inevitabilidade

Alguns fatos da vida provavelmente nos causam a mesma sensação que imaginar o futuro de Amy Winehouse.

domingo, agosto 24, 2008

Vivement Dimanche

Disse uma amiga querida, esses dias, que não há possibilidade de que tenhamos um dia ruim depois de um café tomado no terraço, com temperatura amena e a perspectiva de fazermos nosso trabalho do jeito como o queremos.
Estou de pleno acordo, mas acrescento que a vida soa gostosa também nos domingos em que a chuva intensamente precipitada dá lugar a um sol morno, a um céu azul claro, com poças d'água recentes nas ruas, e o parque começando a ver brotar gente das casas, a povoar o dia.
E deixam de ser feios os rapazes fardados do colégio militar, os grunges tardios em suas rodas de violão ao som de Nirvana e regados a vinho barato, os emos naïfs e andróginos exibindo sua esquisitice juvenil antes que ela acabe; e se tornam mais belas ainda as crianças pequenas, os pais e mães esperançosos; os velhos, mais serenos.
Até o amor a gente o aceita por fugidio que seja, dançando nas lembranças, mutante pelo tempo e incerto o quanto o possa ser, a gente o aceita pela franqueza que ele faz brotar, alimentando-se da luz do sol de um domingo tranqüilo.

domingo, agosto 10, 2008

Um dia após o outro

São dezesseis horas e dez minutos do dia dez de agosto de dois mil e oito, segundo o calendário gregoriano. Depois de acordar, tomei banho, vesti roupas diferentes das de ontem e desci, malas prontas, para tomar o café da mahhã, por volta das nove e quinze. No salão, havia algumas famílias. Eu tomei um copo de suco de uva, comi pão com queijo branco e presunto, um pouco de ovo mexido, e salada de frutas com corn flakes e iogurte. Paguei a hospedagem e caminhei até à rodoviária para pegar o ônibus. Dormi por quase duas horas até Porto Alegre. Peguei a linha São Manoel, desci na rua Domingos Crescêncio e caminhei duas quadras até minha casa. Ao ouvir o barulho da fechadura, meu gato veio até à porta, miando, e me recebeu. Eu troquei novamente de roupas, peguei meu capacete e desci novamente para pegar minha bicicleta. Pedalei até o parque da Redenção, dei voltas e mais voltas e percebi, a duas quadras de casa, que o pneu que eu tinha mandado arrumar ontem, continua furado, de alguma maneira. Arrastei a bicicleta até aqui, a encostei no hall do prédio e subi. Sentei à frente do computador para olhar os e-mails e pesquisei, no Google, sobre a palavra "impermanência". Senti que preciso viver o dia de hoje para que o dia de amanhã chegue. Então é hora de lavar a louça, preparar alguma coisa para comer e me dedicar aos pequenos afazeres que me esperam. Sei que vou deitar e dormir. Amanhã eu decido o resto que me cabe decidir amanhã.

sexta-feira, junho 27, 2008

Literalmente

Eu gosto das coincidências inocentes de aleatoriedades como essa:

Momento de voar
A hora é esta, Lívia: arriscar-se, atirar-se destemidamente na direção do novo. Ainda que muitas pessoas possam se apavorar e tentar lhe demover daquilo que sua alma interpreta como um novo impulso criativo, não se incomode. As pessoas falam porque estão viciadas em certezas e seguranças. Mas O Louco, arcano zero do Tarot, vem lembrar que, eventualmente, alguma loucura é mais do que bem-vinda! Ponha sua vida em movimento e lembre-se que é sempre momento de recomeçar. Evite o medo e não espere as coisas tomarem uma forma “certa” para agir. Vá! Conselho: Momento de se atirar em novas direções, sem temor.

quarta-feira, junho 18, 2008

Personalidade

Tamanha é a riqueza de personalidade de Mercúcio José, o senhor meu gato, em suas manifestações quase antropomórficas de fome, enfado e interesse, que não me admiraria chegar em casa um dia e encontrá-lo assim:


Desenho que tirei daqui.

quarta-feira, junho 11, 2008

Informe do Lago

Porto Alegre, 10h00, 7ºC e céu azul-escândalo. No telhado de um dos armazéns do porto, cerca de 20 garças descansam e tomam sol. Muito frio para voar, muita beleza para curtir.
And I am in the office. Bah.

quarta-feira, maio 21, 2008

Pôr-do-sol do reco-reco

Da prosa...
A tarde começou com a contemplação dos últimos raios de sol sobre o lago, tremulado pelo vento tranqüilo que não condizia com o peso das nuvens acima; uma parte das águas tremulava para um lado, mais adiante, as águas iam para outro. Aquilo tudo, refletindo o crepúsculo, lembrava uma televisão mal-sintonizada... ou é a televisão mal-sintonizada que é metáfora de um lago que tremula meio absurdo? A TV Digital vai acabar com esse tipo de coisa. Então fico só com o reflexo do lago, que é muito melhor.
... ao proseado
Daí a noite veio, quente como o verão, e com ela veio o álcool. Foi assim: primeiro, o espumante da inauguração duma loja chique no Moinhos Shopping. O recanto da penetrália (ficou erótico, mas não é) festiva; depois, Jojô e eu indo a um restô-bar (como a turma do valor-agregado chama botequim metido a besta) muito bem decorado e ambientado na Praça Maurício Cardoso. Chopp a R$ 5,50. E terrine do chef, com uma pasta de salmão e outra de, hum, foie-gras? que, juro, uma lembrava sardinha em lata, e a outra, o whiskas sachê de Mercúcio José, modusquí toda a brincadeira custou bastante dinheiro e teve gosto de ração felina. Não contentes com a farta de faltura (ou a falta de fartura), a alternativa foi descer para o boteco ao lado, cuja proprietária era uma dona de classe, tratou-nos mui bem a chope e caldinho de feijão (banquete orgiástico que se revelou muito melhor em custo-benefício). Lá pelas tantas, entra no recinto cubiculístico um grupo de jovens louros-bem-nascidos, munidos de cavaquinho-pandeiro-reco-reco-agogô-só-faltou-a-cuíca e dali, de dentro do bolso metafórico, sacam de um samba bem tocado com direito a breque e Folhas Secas e outros clássicos. Assim, em pleno bairro nobre da capital gaúcha. Porque é muito chique ser gente hoje em dia, povo.

quarta-feira, abril 30, 2008

Suburbana mais mesquinha

Bêbada de sono, acabei alongando exatos e disciplinados dez minutos do meu sono. Por conta disso, perdi o ônibus das 8h00 e só consegui pegar o das 8h10. Qual não é a minha satisfação, o meu regozijo, o meu diaboliquinho e delicioso conforto de perceber que o ônibus da frente estava quebrado e que o povo que ficou sem roda teve de pegar justamente o MEU ônibus, aquele que só peguei por ter protelado a obrigação de sair 10 minutos mais cedo? Dei uma risadinha bem da satisfeita, sentada à janela.

sexta-feira, abril 25, 2008

Liquidificador

Quietinha, fim da tarde, uma coceira por dentro do peito. O nome disso é ansiedade. No imediato, nada a acontecer, nada - que eu saiba, e o que eu não sei é infinito - por vir, mas esse bicho, que sou eu mesma, consome o algodão-doce da tranqüilidade que mora aqui dentro. Ele come devagar, mas esse mastigar moroso tem uma saliva corrosiva que vai lentamente se embrenhando em cada fibra e, como milagre, uma hora isso tudo passa. Acho que tem um porvir, na verdade, há um "por ir" e ir implica, daqui a poucos dias, passar por essa pinguela de madeira frágil que me leva aos 30. Sem nada depois. São 30 anos, mas podem ser 30 idéias, 30 vidas, 30 histórias, 30 dias, 30 minutos.