terça-feira, janeiro 29, 2008

Nadando no rio de Heráclito

Ontem à noite, eu senti tantas saudades do meu pai. Tenho sentido, aliás, como se só agora, cinco anos depois da sua morte, eu percebesse que ele não está aqui. Ou, na verdade, que ele está, mas em mim, e a mim é que cabe viver a porção que tenho dele. A porção de palavras, de saudosismo, de um jeito de ver o mundo que tem mais ingenuidade que inocência, um pessimismo amoroso, um otimismo desconfiado, ou seja lá o que for.
Por algum motivo, quando dormi, sonhei que eu tinha me casado e, feliz, sentia com orgulho o amor metalizado na aliança que usava no dedo. No coração, eu guardava a certeza do amor da minha vida e um espaço para lembrar do amor como ele fora antes do caminho longo a percorrer até encontrar a primeira pessoa que consegui enxergar para além das minhas ilusões e fantasias, portanto amada de verdade.
Isso tudo me fez perceber, não de repente, mas como uma constatação vivida, de que já há branco nos meus cabelos, de que a grama cresce e o relógio é uma ilusão de um tempo muito maior que uma engrenagem, que nos permite sermos velhos e crianças ao mesmo tempo.

Um comentário:

Vica disse...

Exatamente o que tem acontecido comigo, com relação ao meu avô. Parece que a ficha às vezes demooooora pra cair.