sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Número 1

Janeiro.

Foi de tudo. E foi algo, como uma porta sólida. Seu frio selava a cidade numa cápsula cinzenta. Janeiro foi momentos, e janeiro foi um ano. Janeiro fez chover os instantes e congelou-os na sua memória: a mulher que ela viu consultando ansiosamente, à luz de um fósforo, os nomes em uma entrada escura, o sujeito que rabiscou um recado e entregou-o a seu amigo antes de se separarem na calçada, o sujeito que correu um quarteirão atrás de um ônibus e pegou-o. De cada gesto humano parecia emanar uma magia. Janeiro era um mês de suas faces, chocalhando como guizos de bufão, estalando como crosta de neve, puro como qualquer começo, taciturno como um velho, misteriosamente familiar e ainda assim desconhecido, como uma palavra que quase se define, mas que não se chega a definir.
Patricia Highsmith in: Carol. Porto Alegre: LP&M, 2006.

Um comentário:

Bela Figueiredo disse...

nossa! me sinto contamplada novamente. feito Jano e suas duas faces. [incidental: duas ou duas mil?].