domingo, dezembro 10, 2006

84 Charing Cross Road



Sim, o amor tem muitas faces. Hoje é aniversário da minha mãe, que fez 61 anos e estava feliz, prestes a receber suas amigas em sua casa que fica a mais de mil quilômetros da minha: além de significar o acalanto do afeto materno, familiar e fraternal, (tipo de amor que tenho esperanças em reacender depois de um ano e tanto de psicanálise e uns poucos pontos alinhavados), amor para mim é, depois de um ano de um lampejo que iluminou a minha vida, chorar em dupla diante da tela da TV. Nesse caso, emergindo de uma catarse em comum, provocada por um outro tipo de amor - o epistolar. Aquele amor que une duas pessoas que poderão ou não fazer sexo um dia, que poderão - ou não - simplesmente sentar-se à mesa de um café e compartilhar de umas quantas xícaras.

"Nunca te vi, sempre te amei" é um filme de 1986 que eu ainda não tinha visto. Traz Anthony Hopkins num papel que parece feito para ele (que se reinventa e se legitima em 'Vestígios do Dia') e Anne Bancroft encarnando uma fonte de inveja para mim - muitos livros em casa, uma máquina de escrever que funciona o tempo todo e aqueles tipos de amigos que fazem a alegria de um apartamento de um quarto. Ok, pensando bem eu já tenho isso, à minha maneira.

O filme me emocionou com elementos muito parecidos com "Paris é uma festa", de Hemingway: livros, comida e um punhado de amigos próximos com quem se pode falar um monte de bobagens, e essas bobagens são o que de fato a vida guarda para sempre. O pacote de cartas que se junta de semana em semana, as encomendas de Natal, a gratidão que é um afago carinhoso na alma, as palavras de outrem que a cada missiva são um reflexo de nossas próprias idéias.

De um só golpe, a internet aumentou possibilidades: mais amigos e mais rapidamente, mais informação, uma incrível simultaneidade e, como conseqüência possível, dirpersão e enfraquecimento do sentimento mágico de se receber notícias de longe. Mas não sou contra, pelo contrário. Só tenho saudades dos carimbos do correio, dos selos e, principalmente, do recheio do envelope e da vontade sincera de encontrar o interlocutor caligráfico, o amigo sincero que envia pedaços de si mesmo pelo correio.

6 comentários:

Cinara disse...

Parabéns pelo aniversário da tua mãe e pela vontade de resgatar o amor familiar em sua plenitude. Também adorei "Nunca te vi, sempre te amei, e chorei nas duas vezes em que assisti.
Grande abraço

Belly disse...

ÊÊ, parabéns!

Parabéns! Parabéns!

Júlia disse...

É linda a forma com que você torna todas as palavras suas, palavras plenas,porque foram de fato vividas e experimentadas.Tenho um mundo dentro de mim, mas não consigo traduzí-lo, porque sinto que as palavras não me pertencem. Quando foi que você vivênciou esse momento mágico, quando você percebeu que as palavras te pertenciam?

Estou sempre por aqui, mas como não tenho muito a dizer, prefiro ouvir.

Bjos

Lívia disse...

Júlia: acho que sou eu que pertenço às palavras. Ainda não as domei, portanto não há pertencimento.
Visite sempre e diga oi sempre que puder, também. Adoro! :D

Júlia disse...

Interessante essa coisa de pertencer às palavras... Fiquei pensando sobre isso. Pertencer às palavras me remeteu a contexto. É isso, acho que tenho um problema de contexto - de/ e com texto rsss... Acho que é daí que vem uma certa implicância com o jornalismo, lembra? - comentei isso aqui uma vez, sobre os autômatos da informação. Pelo menos eles contextualizam,né?

Mas você é algo a parte,com certeza, uma jornlista poeta!

Bjos

Joelma disse...

Em 2007 eu vou te mandar uma cartinha, tá?
...
Vi o "Sempre te vi..." há uns bons 20 anos atrás, tempo em que via TODOS os filmes que passavam na Sessão da Tarde. Todos mesmo. Bom rever agora, né? :)
...
Já disse que adoro o que tu escreve? Adoro. Adoro. Cada espaçado post vem com um gostinho de delícia. beijo Levinha