segunda-feira, novembro 12, 2007

O pardal de Paris


Edith Piaf e Marion Cotillard: ambas entenderam e expressaram


Admito: até uns 10 anos atrás, quando eu era uma jovenzinha estudante de francês, a chanson française (o gênero clássico marcado com canções como Ne Me Quittes Pas, La Bohème, Les Feuilles Mortes) era sinônimo de pieguice, principalmente para uma adolescente afeita ao rock e anterior vítima infantil de sonoridades inomináveis (como Menudo).
Mas ao torcer o nariz para as amostras apaixonadas de antigas canções que minha professora oferecia, ouvi a reprimenda de que, para entender mais do que a letra, mas o espírito daquela música langorosa, era necessário ter tido pelo menos uma vez, o coração partido por uma paixão avassaladora e sentir o gosto de um destes dissabores. Não faltava muito tempo, portanto, pra o que ela dizia fazer sentido.
E faz mais sentido o mote de "viver para entender" quando se assiste Piaf, o filme biográfico estreado pela impressionante Marion Cotillard, sobre a vida da intérprete mais intensa da música francesa. "Viver para expressar", aliás, seria o mais adequado, quando se vê que a força da interpretação de Edith Piaf escorre de uma vida mambembe e que se alimentou do caldeirão de fome, doença, som, cheiro, céu, frio, gente e tudo mais que existe no universo parisiense e que não por acaso também foi influência para pintores, escritores e outros artistas. Esse é o princípio que rege todo o filme, que faz a mulher recém-atingida pela morte repentina de seu amante boxeador sair do seu quarto diretamente para o palco ou retratar o momento de sua estréia num Music-Hall sem o som da sua voz, mas com os gestos da cantora e as reações na platéia, culminação de todo um gestual cuja naturalidade respirou o ar da rua para transmitir a alma de Paris debaixo dos refletores.
Toda a sua evolução está ali e não bastasse o ápice de paixão e de sucesso, o filme deixou claro que Piaf foi de um talento inexaurível até o fim. Non, elle ne regrette rien.

4 comentários:

Luíza disse...

Lívia, vou te confessar que estava inclinada a não assistir esse filme, essa coisa de uma criticazinha rasteria, de um pedantismo burro e blasé, dos detentores do monopólio da “Cultura e das Artes”... “A inesquecível Piaf ... Piaf, que foi arrebatada de uma condição de miséria e indigência em função de sua inigualável voz...”, sabe, esses chavões de um culto obscurantista e obsceno à celebridade, como se Piaf fosse Piaf por uma essência de Piaf, que vem da origem e da nobreza de seu espírito – ela já nasceu Piaf e seria Piaf em qualquer lugar ou situação, apartada de seu meio e de sua contingência. Piaf, sempre Piaf, sabe? É diferente quando ouvimos algo assim, de quem viu e sentiu Piaf: “ Piaf escorre de uma vida mambembe e que se alimentou do caldeirão de fome, doença, som, cheiro, céu, frio, gente e tudo mais que existe no universo parisiense e que não por acaso também foi influência para pintores, escritores e outros artistas. (...)Esse é o princípio que rege todo o filme, que faz a mulher recém-atingida pela morte repentina de seu amante boxeador sair do seu quarto diretamente para o palco ou retratar o momento de sua estréia num Music-Hall sem o som da sua voz, mas com os gestos da cantora e as reações na platéia, culminação de todo um gestual cuja naturalidade respirou o ar da rua para transmitir a alma de Paris debaixo dos refletores” . Lindo, vou assistir Piaf!

Lívia disse...

Wow, Luíza, obrigada! :-)

Adalberto Queiroz disse...

Oi, Lívia.
Já tinha decidido ir ao cinema ver (reviver) as emoções da carreira de Piaf. Seu post só reforça isso.
Ah, obrigado por seu comentário em meu post sobre Françoise Hardy.
Abraço fraterno,
Beto

Clara Lopez disse...

Perfeito!
abraço
clara lopez