domingo, janeiro 07, 2007

Da ditadura da beleza



Frida Kahlo é uma gêmea. Não por eu ser mexicana, artista plástica, bissexual ou por ter problemas ósseos. Mesmo que eu fosse tudo isso, nossa semelhança, na verdade, reside na sobrancelha e no buço: a dela, herdada não sei de onde; a minha, da ascendência portuguesa transmitida pelo meu pai. De modo que sempre tive de conviver de perto com pinças, cêras das mais variadas temperaturas ou simplesmente lâminas de barbear adaptadas à realidade feminina.

Na relação conflituosa entre colonizador e colonizado, em muitos pontos queremos ser como nossos ancestrais europeus: na cultura, na economia, na cor do cabelo ou dos olhos etc. Ja a pele, pelo menos nós mulheres a queremos como a de nossos índios. Lisinha, de preferência sem nenhum pêlo. E foi nesse desejo que, com uns 12 ou 13 anos, surrupiei o aparelho de barbear do meu pai: era um antigo, em que se colocava uma gilette em uma base de metal atarrachável. Com uma escorregadia camada de sabonete nas pernas, raspei os já abundantes pêlos que tinha nas pernas e coxas e fui à escola, no dia seguinte, de bermudas. O olhar sobre mim foi todo novo: nem parecia que, um dia antes, eu freqüentara aquela sala de aula, que minhas colegas (as meninas) me conheciam. Eu era uma estranha que recebia olhares admirados das outras meninas. Sem me dar conta de que antes eu não fazia, na verdade, parte da turma, fui acolhida: agora eu era normal.

Uns dois anos depois, foi a vez das sobrancelhas de Frida Kahlo. Um pouco de dor a cada picada da pinça, mas tudo bem: elas ficaram modeladas e lindas.

No ano seguinte, fui a um outro salão e cortei o cabelo bem curtinho, no estilo Joãozinho. Estava magrinha, achei que ficou ótimo. Tinha marcado uma limpeza de pele no mesmo local e, depois de uma dolorida sessão em que cravos e espinhas deram local a casquinhas de ferida e erupções inchadas, a esteticista fez a pergunta derradeira: "e esse bigodinho, não vai tirar?". Meio em dúvida e preocupada com sentir mais dor, acabei aceitando em nome de um rosto mais... feminino. E nunca senti uma dor tão lancinante, com a pele puxada de maneira violenta, se desgrudando, como um rasgo, da cêra quente que arrancou cada pêlo e penugem. Uns segundos depois da sessão de tortura, que tinha sido na frente de todas, olhei em volta e comecei a chorar: de humilhação, de dor, de vontade de ir pra casa e me esconder do mundo. Mas não conseguia esconder as lágrimas, as erupções e a pele avermelhada dos repuxos: o meu cabelo estava irremediavelmente curto como o de uma Joana D'Arc. As freqüentadoras do salão se entreolhavam, me olhavam com olhar de pena, até que a dona do salão me disse: "é assim mesmo, filhinha. Ser bonita dói". E será que não ser não dói mais ainda?

8 comentários:

Belly disse...

Genial. Amei o texto.

(identificação imediata.)

AnaBettaBlue disse...

dói é a ditadura.

Cinara disse...

Me desculpem as adeptas do naturalismo, mas depilação é fundamental.
Grande abraço.

CALEXIco. disse...

Eu tb eu tb eu tb me identifiquei.

W. Sobchak disse...

Ola.
As vezes som as proprias mulheres as que fazem mais forte esa ditadura
De facto, esta-se a crear uma beleza artificial da que nom gosto
Saudos europeus

Sara disse...

ótimo texto.
fiquei sem ter o que dizer.
bj

Joelma disse...

"Ser bonita dói". Uia!
Eu não sei se já te disse. Acho que já te disse: eu AMO o que tu escreve. Texto lindo, Levinha. Lindo, lindo.

Ju. disse...

pensando assim, acho que eu também sou gêmea da Frida...
bahhhh

odeio sessões depilatórias, onde as outras mulherzinhas do salão morrem de lástima de nós, que temos que depilar todo o rosto.

odeio isso!