sexta-feira, novembro 24, 2006

Message in a (pet) bottle


Uh, uh, uh, que beleza!

Ônibus lotado todo dia é um mal inevitável pra uma automobilisticamente inútil, como eu e, nesses momentos claustrofóbicos, só resta de alguma maneira tentar alhear os olhos e a mente em algum outro lugar além da multidão assardinhada.

Pois que, no cruzamento da Silva Só com a Ipiranga, vejo a tentativa de adorno da população que vive do sustento via semáforo fechado: uma cafona e sem graça árvore de Natal feita com cerca de uma centena de garrafas Pet. Numa árvore, penduricalhos natalinos de... garrafas pet.
Nem preciso dizer que acho de um mau-gosto invariável a grande maioria desses objetos de decoração de lixo reaproveitado cujo do it yourself a gente vê na TV vespertina, salvo exceções raras.

Mas fiquei pensando - transcendendo a necessidade ambiental de reciclagem yadda yadda - que a matéria prima do mundo virou predominantemente o lixo. Nas minhas nostalgias de mimos de avó, me vem à lembrança toalhinhas bordadas, beirais de janela cheios de flores, pingüins de geladeira breguchos, tudo isso cultivado por gente de origem simples, pobre porém limpinha, que suava horrores de trabalho por um feijãozinho, quando uma televisão - isso existe? - custava exorbitantes 7 mil cruzeiros. Agora, porém, em um mundo que não tem mais de onde oferecer recursos, em que a mãe natureza já está mais cansada que Tereza Batista, a roseira do quintal, o fio do bordado, os estilingues de forquilha de madeira só podem virar badulaques de garrafa pet, bibelôs reluzentes de CD's da America Online e outras porcarias.

Pois que um mundo mortalmente poluído é também um mundo mais cafona.

2 comentários:

Belly disse...

Genial.

É isso mesmo. A arte refletindo a imundície que tornamos o nosso mundo.

Camille disse...

Post realmente sensacional, Lívia. Eu notei que anda "desaparecida" do msn, mas eu também ando mais ou menos, enfim...
A gente se encontra via blogs.
Bisous. :)