quinta-feira, julho 12, 2007

A Bibliotecária de Lampião

Malvina e eu à mesa de sua cozinha. Eu, por volta de uns 10 anos; ela, uns cinqüenta e poucos. Cabelos sempre curtos e encaracolados, àquela altura já cinzentos, óculos redondinhos emoldurando os olhos nordestinos. Se Lampião tivesse uma bibliotecária irrequieta, seria ela. Malvina, por algum cruzamento estranho da lógica, era mórmon e comunista. Ninguém entendia. Ninguém entendia nada, na verdade. E eu, em criança, lia muito e perguntava tudo, e sabia algo sobre os mórmons: que, em tese, os homens podiam praticar a poligamia; que aqueles moços loirinhos que andavam de camisa de manga curta e gravata pela cidade eram missionários de sua religião fora dos Estados Unidos. E algumas outras coisas. À mesa, portanto, tomávamos café. E eu lhe dissera:
- Tia, é verdade que os mórmons não tomam café, nem chá preto?
- É, sim.
- E a senhora é mórmon, né?
- É, sim.
- E por quê, então, a senhora tá tomando café preto?
Ela parou, olhou pra mim e disse:
- Escuta, menina: regras foram feitas para serem infringidas.
Agora: digam se uma mulher assim não é uma mulher inspiradora.
Acontece que ela faleceu noite passada, no hospital, e está sendo velada neste momento na capelinha dos mórmons. E só ela sabe para onde ela está indo. Talvez para a biblioteca de Lampião.

3 comentários:

Tatiana disse...

Afe, menina Lívia. Você me faz sorrir.
Beijo

Tinne Fonseca disse...

Olá,
Adorei!_ rsrsrs. Principalemnte a lição para quem quiser saber que "as regras foram feitas para serem infringidas"...
Tenha uma ótima semana!!!
Um abraço,
Tinne

L. Archilla disse...

que lindo!