segunda-feira, outubro 27, 2014

Viciada em fanfic: Carol e Therese depois do fim


Todo esse post é um alerta de spoiler para quem não leu o livro "Carol", da Patricia Highsmith. Mas se você não leu, leia (tem um livrinho de bolso bem acessível pela L&PM)! Ou vá adiante mesmo assim.

Elas ficam juntas no final, ok, mas ninguém sabe o que vem depois disso. Embora eu seja otimista em achar que elas ficarão juntas para sempre, não quer dizer que elas não tenham de enfrentar momentos difíceis e questionamentos graves. Ainda mais sendo lésbicas no armário que se conhecem nos anos 50 nos Estados Unidos.

A fanfic também se baseia no que já há de informações sobre Carol, o filme: nele, a personagem Therese Belivet é uma fotógrafa novata, e não uma cenógrafa. O trecho abaixo, portanto, retrata a vida de ambas 10 anos depois do fim da história.



Fan fiction - Carol/The Price of Salt - Carol e Therese dez anos depois
Por Lívia Araújo

Carol não chegou a entender como Abby soubera. Mas de alguma maneira, Harge sempre fazia chegar a seu conhecimento as notícias que lhe eram convenientes. O fato é que Rindy dissera, em seu primeiro dia de caloura na escola particular em New Jersey, que era órfã de mãe. Therese estava em viagem, pela revista, e Carol ainda não havia conseguido conversar com ela a respeito.
Doía demais. Era uma escolha de sua filha, agora jovem, com seus anseios adolescentes, querendo ser incluída e aceita em seu novo grupo de amigos. É possível que daqui a alguns anos ela se arrependa, pensou Carol, refletindo que, se isso acontecesse, talvez fosse mais por Rindy não ter sido sincera consigo mesma pelo fato de ter uma mãe “desviada”, do que por esse desvio, na verdade, não existir de fato, ou por ter dado ouvidos a uma família parcial. Para a própria Carol, aceitar a si mesma e sua impotência perante esses fatos já era um processo longo, sofrido, e caro. Para Rindy, com sua idade imatura e tendo em volta a família Aird, abastada em termos materiais mas medíocre em evolução social, superar a revolta, a rejeição e questionar dogmas parecia incontornável.        
Mas, de qualquer forma, a vida não era insustentável. Ela tinha quase o que podia chamar de um toque de Midas para os negócios e isso não atrapalhava em nada. Abby e ela se uniram novamente, com fins comerciais, e reabriram sua loja de móveis, agora com peças originais. O capital inicial veio da família de Abby, mas esta não a tratava como uma sócia minoritária. A amiga projetava as peças, e ela ia atrás de compradores. Certamente Harge já havia sentado em uma de suas poltronas sem saber, porque elas forneciam basicamente para escritórios e hotéis em Manhattan. Já cuidavam de cerca de 10 funcionários, que trabalhavam em um galpão em Washington Heights.
Essa nova fase de prosperidade não permitia luxos, de qualquer forma. O divórcio, para ela, foi como um período de guerra não só no âmbito familiar, mas também porque trouxe óbvias dificuldades financeiras para alguém acostumada a viver naquele padrão despreocupado de dona de casa. O despojamento de Therese fora útil, portanto; sua sobriedade era milagrosa.
A extravagância prioritária daqueles dias era ir ao consultório de um psicanalista assaz renomado. Fora um colega de Therese, Dannie, que o indicara. Duas vezes por semana ela se deitava no divã sem ver o rosto do homem e dizia, sem o temor do julgamento, coisas que moravam nos cantos escuros da sua existência.
O fascinante é que a psicanálise lhe mostrava a ironia daquilo tudo. Deu-se conta, ainda ontem, de que o que acontecia com Rindy era muito parecido com a maneira como Therese narrara os dissabores vividos com sua própria mãe. Em como ela tinha aquela allure de órfãzinha, quando contou que sua mãe a enviara ao colégio interno ao se casar com Nicholas Strully. Como ela se sentiu preterida em relação ao marido da mãe, que era uma espécie de rival ao amor que ela não recebera. E agora Rindy sentia o peso de uma rejeição parecida, porque Carol desistira dela – era assim que as circunstâncias fizeram parecer - para viver com uma garota não tão mais velha que ela, um ultraje inominável que lhe dava a marca de um desvio incurável. Doía, e embora ela soubesse que isso não era culpa nem de Rindy, nem de Therese, suas lágrimas caíam abundantes.
Era de tarde, e ela olhava fotos velhas e novas de Therese, sentada no sofá da sala. Algumas eram fotos de sua primeira viagem, quando dera a ela a câmera nova em folha, sem suspeitar que, como com a Leica de Cartier Bresson, haveria mágica a ser feita com ela. Viu-se em imagens feitas por Therese em suas paradas ao longo da estrada. Via a si mesma naquele inverno de 1952, vestindo seu mink em gestos triviais. E via amor ali, observando a si mesma através dos olhos de Therese. De suas lentes. Outras fotos, ainda melhores e mais equilibradas em suas luzes e sombras, vieram ao longo daqueles dez anos. Therese não era mais uma menina. Era uma mulher ainda jovem, de quase 30 anos, mas já uma arguta observadora da vida cotidiana. Seus retratos de gente simples, de todo o país, vivendo vidas ordinárias e suburbanas, ganharam páginas de revistas de grande circulação. E, ainda assim, para Carol, suas melhores fotos tinham sido as primeiras, produzidas em seu primeiro jorro criativo, com uma capacidade ainda bruta de captar o essencial.
A porta se abriu, e por ela entrou Therese, carregada de uma valise – ainda aquela valise -, além de todo o material fotográfico, e um casaco pesado. Quando ela viu Carol secando as lágrimas, largou tudo no chão e foi ao seu encontro.
- O que aconteceu, querida? – ela perguntou, agachando-se na frente do sofá para afastar os cabelos de Carol e limpar as lágrimas de seu rosto avermelhado.
- É Rindy, Therese. Abby ficou sabendo que ela contou aos colegas, em sua primeira semana de caloura, que é órfã de mãe. – E, com isso, Carol voltou a chorar, inconsolável.
- Oh, meu bem. Que droga.
Therese a abraçou forte, por um tempo longo, sentindo os soluços de Carol em seu ombro.
- Deixe que eu cuido de você.
As malas e o casaco ficaram na entrada do apartamento. Therese levou Carol para o quarto, deitou-a na cama delas, e correu à cozinha para preparar o Earl Grey de que Carol gostava. Voltou com a xícara fumegante, uns biscoitinhos, e os deu para Carol enquanto se despia e colocava o tipo de roupa surrada e macia que era como a trégua das semanas intensas de trabalho.
- Estou aqui. Precisava deixar uma caixa cheia de negativos na redação, mas não vou mais. Vou passar o resto da tarde com você – Therese disse, enquanto se sentava na cama, na frente de Carol, tomando dela a xícara de chá quase vazia, e pousando-a na mesa de cabeceira. Deu-lhe beijos leves: na testa, nas sardas da parte mais alta de seu nariz, em seu queixo... e, tal como sempre, esse contato amado e conhecido guardava um resquício do primeiro beijo delas no quarto do hotel em Waterloo, quando ambas tiveram a coragem irreversível de confessar o inconfessável. Então Carol buscou sua boca e a beijou em um impulso quase desesperado, enquanto novas lágrimas caíam. Therese correspondeu ao beijo mas, cheia de placidez, foi desacelerando e voltando ao pequeno e leve contato entre as línguas e os lábios. Depois pousou seu rosto no pescoço de Carol, afundando-se naquela porção cálida de pele, sentindo seu perfume tão familiar, como se só naquele momento estivesse chegando em casa. E, nesse movimento, nesse encaixe exato de amores que se pertenciam, Carol relembrava sua história.
- Você não sabe que eu te amo? – Carol falou, como na primeira vez.
- Eu sei. Eu sei, sim.


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