sexta-feira, outubro 24, 2014

Mais fanfic: Carol e Abby discutem sobre Therese

imagem: Joe Wessels

Outra fanfic (estou adorando o processo!) alusiva ao livro de Patricia Highsmith, Carol. Esta e Abby Gerhardt são melhores amigas - e o trecho abaixo, imaginado, traz um diálogo em que ambas conversam sobre a possibilidade de Carol levar Therese em uma viagem. Ao contrário do trecho anterior, que foi um "abrasileiramento" da histórica, essa segue a trama original e tenta manter o clima da história. No cinema, Carol e Abby vão ser vividas por Cate Blanchett e Sarah Paulson, conforme essas fotos do set de filmagem.

Fan fiction - de Carol/The Price of Salt - Patricia Highsmith
escrita por Lívia A.

Carol e Abby discutem sobre Therese Belivet

A freada do carro conversível no cascalho quase provocou um acidente, que certamente acertaria um dos corrimões laterais da entrada da casa.
- Ô, de casa!

Era Abby. Claro. Ela ficou uns dois minutos batendo à porta da frente antes de simplesmente dar a volta e encontrar Carol na beirada da porta da cozinha, chupando o gelo do copo de scotch, às duas da tarde. Florence, a empregada, não estava.
- Ei, por que você não disse que estava aqui e me deixou lá na frente gritando? - espinafrou Abby.
- Eu queria ver quando tempo você ia levar para se dar conta de que eu estava onde sempre estou, Abigail.
- Abigail… - Abigail debochou - Você só me chama assim quando…
- Quando…
- … quando… Ok. Você já adivinhou. Sim, eu fui almoçar com sua Terry. Sabia que ela me delatar, claro.
- Ela não é “minha” Terry, Abigail. - Carol respondeu com olhar reprovador.
- Olha, querida, pois não é o que parece. Eu disse, porque sei que é verdade, que você gosta muito dela. Mas eu vi o mesmo ali, sabe? Ela gosta muito de você. Ela parece uma adolescente apaixonada… oh, espere! Ela é uma adolescente apaixonada! - Abby enfatizou o “é”.
- Abby, você sabe quando começa a me irritar.
- A sério, Carol. Meu medo - e eu tenho quase certeza de que isso pode acontecer - é só que ela te desaponte. Ela não tem fibra para sustentar qualquer postura, caso se sinta acuada. E quase nem é culpa dela, é só que ela é tão nova...

Carol lhe respondeu com seu incofundível e resignado olhar de “eu sei”.
- Fazer o quê, né, Abby?

Abby tentou mudar de assunto, e conseguiu.
- Escuta, onde eu consigo um pouco desse scotch glorioso que você estava bebendo, hmm?
- Você sabe onde. Mentira. Peguei do barzinho do Harge, na verdade. - respondeu Carol, com uma piscadela.
- No caso, a vingança é um copo servido on the rocks. Contudo, dear, já que é do Harge, eu vou tomar o meu a cowboy, que é para aproveitar a oferta.

Carol fez um gesto de brinde com o copo onde só havia sobrado o gelo, e que ela resolveu não repor. E a própria Abby retomou o assunto, enchendo o copo com o uísque 18 anos do, er, compadre, presente anual da “firma”.

- Vai acontecer, não vai? - Abby perguntou, dando seu primeiro gole do dia e franzindo a cara com a intensidade da bebida.
- Eu não sei. Eu tenho a imptressão de que é o que ela quer, você não achou?
- Achei, sim. Mas é o que você quer?
- Você ficaria com ciúmes? - Carol provocou.
- Do que adiantaria, não? O que era nosso já passou. Parece que foi ontem, de fato. Passou. Mas responda: é o que você quer? - Abby insistiu, disposta a obter uma resposta que não só sanasse sua dúvida quanto servisse de salvo-conduto para ela seguir, finalmente, sua própria vida, ainda que um pedaço sempre fique para trás.

Carol silenciou por uns segundos. E, por fim, admitiu:

- Sim, é o que eu quero.
- Você se apaixonou pela pequena, então.
- Sim, Abigail, eu me apaixonei pela pequena. Ela é uma graça, Abby. Aquela fragilidade e insegurança, que ao mesmo tempo me dão a sensação de que ela, sim, mataria Golias com uma funda. E o jeito como ela me olha. Harge nunca me olhou assim.
- Foi por isso que você lhe deu aquela Canon caríssima? E é por isso que a está levando para a estrada?
- Sim. E sim. - Carol quase perdeu o fôlego, falando da garota. Ela parecia exasperada, quase sofrida de amor. Com Abby, e só com ela, Carol podia se abrir e se expressar exatamente como se sentia. Com Therese, essa fase ela ainda não alcançara. E prosseguiu:
- Eu preciso… preciso que aconteça longe daqui, de Rindy, de Harge, daquela família horrorosa. Entende?
- Ok, então - disse Abby.
- Ok? Você aprova? Estou liberada para satisfazer meus desejos? - Carol ironizou, dando uma cutucada no braço de Abby.
- Está, querida. Liberada, abençoada e… lascada.

- É - E, de novo, Carol lançou aquele olhar de profunda resignação.



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