quarta-feira, outubro 22, 2014

Fan fiction para The Price of Salt/Carol

Fan-fiction é novidade para mim. Mas tem um livro que adoro, chamado Carol, lançado em 1952 pela Patricia Highsmith. É uma obra "apócrifa" dela, por falar abertamente de uma história de amor homossexual. O tema, na época, ficava relegado aos "pulp fictions" que nunca tinham final feliz - pelo menos para o casal em questão. É provavelmente por isso que ele foi lançado sob o pseudônimo Claire Morgan. O nome original era "The Price of Salt".
Atualmente, a história foi adaptada para o cinema, e está previsto para o ano que vem o lançamento do filme Carol, cuja personagem título será intepretada pela Cate Blanchett. A outra personagem principal, Therese Belivet, está a cargo da atriz Rooney Mara.
Como faço parte de um fórum de discussão sobre o filme e o livro (que tem uma seção em português), resolvi me aventurar por escrever um trecho com a minha própria versão do romance - e abrasileirei as personagens e as circunstâncias. Mesmo com as diferenças, os personagens são os mesmos e as circunstâncias também.
E, se depender de mim, pelo menos nesse blog, gays sempre terão final feliz.

Carolina tinha sido a onda inesperada que varrera, em pleno Natal, toda a enorme seção de brinquedos do Mappin. O que era Teresa além de uma vendedora que tinha, diariamente, de tomar seu bonde até a Vila Mariana e conviver com os olhares estranhos da vizinhança, porque cometia a ousadia de morar sozinha naquela pensão? A existência de Ricardo, em sua vida, tornava-se duvidosa; ele se tornou um estranho no momento em que seu olhar cruzou o de Carolina, e elas se falaram, e quando a própria Tereza viu-se no esforço de decorar o endereço de entrega da boneca, no Higienópolis. A ousadia dos artistas. Que fosse, desde o começo, o que tivesse de ser.

Com Carolina dormindo, deitada a seu lado num quarto de hotel numa cidade em que nunca pensou que visitasse, Congonhas do Campo, Minas Gerais, ela se sentia como uma entidade imaginária; alguém que, pelo ponto que alcançou na escala de possibilidades existenciais, não pertencia mais àquela vida ordinária.

Ela não se sentia suja, nem com o sexo, nem com Carolina, ao contrário do que tudo o que lhe haviam dito a respeito de intimidades. O que ela sentira no contato com o corpo amado fora sublime. Sabia que Ricardo, nem ninguém, nem mesmo outra mulher, fariam-na sentir o mesmo. Olhando o corpo nu de Carolina na cama do quarto do hotel, o que ela experimentou foi enlevo. E, ao mesmo tempo, um medo colossal. De ser obrigada a renunciar o que quer que fosse, tanto àquilo quanto a qualquer coisa que houvesse de bom na vida até então. Ou simplesmente conviver com a marginalidade pela qual já lhe tomavam por frequentar a trupe de atores, por ser a faz-tudo dos bastidores do Tuca. Mas ela queria aprender tudo o que a vida pudesse lhe ensinar.

Carolina abriu os olhos a seu lado, e viu Teresa ensimesmada e pensativa; deteve-se por um segundo olhando o vinco que se formava entre as suas sobrancelhas, e chegou a achar graça de sua aparente preocupação. Ela estava de lado, e pousou sua mão, suavemente, na barriga de Teresa.

- Minha querida... o que foi? – ela sorriu preguiçosa, os olhos ainda cheios de sono.
- Nada. Não é nada. – respondeu Teresa, com o primeiro sorriso testemunhado daquela manhã. – Ei. Ontem à noite, quando chegamos, eu mal vi onde é aqui.
- É Congonhas do Campo. Cheio de obras de Aleijadinho para vermos.
- Talvez ele me dê alguma ideia para um cenário.
- Você quer cenário melhor que este? – Carolina falou, com uma piscadinha marota.
- Esse cenário eternizado em pedra sabão. Eu nunca vou esquecer dele. Só esqueci, praticamente, como a gente chegou até aqui – e levantou-se para apanhar o mapa rodoviário no criado-mudo ao lado da cama. Carolina se divertiu com esse jeito exato de Teresa, parecendo uma boa aluna aplicada.
- Que engraçada é você, Tetê.
- Por quê? – sorriu-lhe a amante.
- Parece caída do espaço.

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