sexta-feira, outubro 31, 2003

Acordei numa profusão de espirros. Meu pai e eu, no dreamlog, cada um em uma janela, nos dávamos as mãos e sorríamos de saudade. No meu awaken dreamlog, papéis amarelados, recortes, velhas poesias, tudo o que vem e vai e apesar de fazer parte de passados, constituem-se como um presente novo e encantador, na minha vida. Diário de um sonho acordado e marcado por uma conversa tão fluída que não se sabe nem de fim nem de começo, que parece uma só coisa que parecia ter sempre estado aqui. Que parece mesmo uma jornada às caixas de sapato, aos baús, aos envelopes e tudo isso são pequenos tesouros de uma personalidade que me toca, que me devassa, que me enfeitiça. A quem eu quero dar as mãos, meus melhores sorrisos e sim, de fato, umas lágrimas também. E tudo isso me dá um aperto no peito que desagua em mim. Fluído como as conversas que não conseguimos nem queremos evitar.

quinta-feira, outubro 30, 2003

Eu hein... nem sei o que pensar de um sonho como esse. Meu dreamlog me lembrou ora Magritte, ora Dali. Sonhei com uma peça de teatro cujo tema central era... o Batman. Ele e o Curinga estavam no banco de trás de um carro, e de repente o banco abriu-se para um alçapão em que caíram os dois. E eu, no banco da frente, me ajoelhei e me estiquei pra olhar onde os dois haviam caído. E sem saber exatamente como, descobri que ambos estavam mortos. Mas desci pelo alçapão, que ao invés de dar para um poço escuro, dava para uma sala iluminada, com um barzinho. E eu, sentada num dos bancos me servindo de uma bebida qualquer, via uma galeria de pessoas mortas, todas elas muito jovens e estilosas e não sabia explicar porque as via, já que eu mesma tinha a consciência de estar viva. Circulei por outros lugares daquele mundo fúnebre, e todos eles tinham o aspecto de uma festa de república. Numa dada hora, parei numa cantina, comprei um suco e me sentei a uma mesa. E Dellibar, vivo, ainda bem, estava lá comigo, e obviamente falávamos de livros e eu o observava bem e olhava bem nos seus olhos, feliz por finalmente conhecê-lo. Mas, num corte (que edição mais mal feita...rs) brusco, estava eu guiando uma moto e indo até outro lugar, em que estavam meus amigos de faculdade. Abracei todos, e acordei.

E será que meu desencalho profissional vai acabar? The guest's always right, babe...

Et moi... je veux faire une paresseuse promenade sur ton bois, chérie...

terça-feira, outubro 28, 2003

Dreamlog jornalístico/incoerente: Uma entrevista num estúdio de rádio, um link ao vivo no jornal de meio dia na Globo, que filmava a quadra da minha casa molhada de chuva. A repórter sem-gracinha entrevistava uma menina interna da FEBEM que participava de uma espécie de convênio com alguma instituição de ensino bem cara, ou coisa assim. E a menina, parecendo ter muito mais inteligência que a repórter, falava com eloqüência sobre o que ela esperava da vida de agora em diante. Voltando ao estúdio de rádio, a entrevista era com um dos "padrinhos" do referido convênio, um homem de pernas inchadas que tomava conta de uma menina loura que também participava do programa. De repente, o velho disse uma piada sem graça e levantou-se, no meio do bloco, para ir ao banheiro. E eu fui com ele. E enquanto ele estava na cabininha do lado fazendo o que só lhe dizia respeito, eu fazia um xixizinho. E aí, sabe-se lá como ou porquê, o velho roubou minhas sandálias e voltou para o estúdio. E quando eu ia voltar pra lá também, mas descalça, eu acordei.
E agora ouço o "Buena Vista Social Club", enchendo-me desse ar meio bêbado-nostálgico-festivo desse CD, mentira, desta fita que o "garoto-propaganda-invisível" do American Express gravou pra mim, numa época em que eu olhava para ele com olhar de peixe morto...

segunda-feira, outubro 27, 2003

Nostalgic Log: Cardápios franceses nos livros dos cursos e das aulas. Desenhos de 4 anos atrás, em que o grafite que marcou o papel fazia as vezes das minhas mãos que acariciariam uma pele que me acendia. Curioso isso, de, pela impossibilidade de revelar desejos tão fortes, transferir a capacidade do toque para os olhos, exercer uma sinestesia de ações que representava meu ardor com traços negros num pedaço de papel. Também as fotos em P&B, de alto-contraste, revelando habilidades principiantes (ainda o são, pela falta de prática) e expressões de uma naturalidade que não existe mais. Mas aqueles foram dias únicos e especiais.

Tá, eu não canso. Ainda chove e eu já mandei CV, já ouvi o Vozes do Brasil, já arrumei a cozinha, já li sobre transgênicos e guerras, já falei com uma pessoa ao telefone, já revirei a casa à procura de uma revista de decoração que creio que será de grande ajuda a um amigo meu, já almocei, já tentei cochilar e não consegui, já até postei e escrevi um post que será enviado com esse adendo, já olhei horas em dois relógios diferentes, já revisei as partituras para o ensaio de mais tarde e nada me dá a sensação de que as horas estão passando na velocidade que eu quero, nada pende a relatividade para o meu lado. Daqui a pouco vou me pôr a varrer o quarto, o corredor, a sala, como se isso já não tivesse sido feito antes. Vou empilhar livros e CD's, vou trocar o Pearl Jam pelo Zbigniew Preisner, vou tomar banho e lavar o cabelo, vou contemplar a chuva por segundos que parecem horas e talvez eu me permita transportar para a maré que invade as ruas pedregosas de Paraty.
O bom é que nesse marasmo ansioso, eu não lasquei nenhuma unha e não fumei o último cigarro de fim-de-semana.

Walkwoman, mais andante do que eu sou navegante, mudou de endereço. Continuem conferindo, degustando, buscando, gostando... :-)
Dreamlog líquido: Coisa inusitada, mas de fato estávamos meu pai, eu e um eterno pretê da minha mãe caminhando juntos e aventureiros no leito de um rio de águas puras e frescas. Conforme avançávamos rio adentro, a profundidade aumentava, e enquanto eles caminhavam, com a água já pelo peito, eu me deixava boiar, guiada por suas mãos. Olhava o céu azul e cheio de nuvens fofas e, de rabo de olho, via barcos de pesca simples e coloridos, ancorados nas margens. De repente, num inspirar desavisado, senti a água entrando pelo meu nariz e, no desespero, acabei deixando-a passar pela minha garganta também. Os dois homens não sabiam o que fazer, visto que agora eu estava sob a água, de olhos bem abertos, com falta de ar e não sei dizer se essa agonia passou só quando acordei ou ainda dentro do sonho. Só sei que, no próprio sonho, pensei naquela estranha sensação de querer mexer o corpo e não poder, em semi-consciência. Mas sabia que não era o caso, naquela hora.
E agora os telhados vermelho-escuros da redondeza ganham a umidade da chuva quase fina de primavera... que já me permite abandonar cobertas e ficar só com os lençóis.
Fim de semana gostoso, de vozes distantes mas não menos queridas chegando, inéditas ou não, aos meus ouvidos. Do amigo de sempre e da enigmática amiga. Bem vindos sempre.

sábado, outubro 25, 2003

Irrequieta como uma menina sardenta que pula corda num pátio. Não sei o que é, ou sei, se resolver incluir a saudade no meu leque de opções. É que normalmente a saudade pra mim é hors-concours, ou a nostalgia, ou a homesickness, ou sentir falta... mas acho que isso tudo é que é digno de nota, pois o sábado corre sem sobressaltos e é marcado pelas minhas obrigações de sempre, cumpridas com resignação e sentimento de necessidade. Mas mesmo assim, estava com um livro de astronomia para principiantes, escrito por Serge Toussaint, que é um homem com ar de lobo do mar, meu amigo, e tão doce que sempre me comoveu. E fiquei com vontade de escrever-lhe, pois não tenho notícias suas há uns cinco anos. E, sei lá, talvez porque meu francês esteja sendo largamente praticado esses dias (rs), ou porque esse francês praticado e saboreado e estimulado tenha me remetido a tudo o que de mais delicioso vivi há pelo menos 5 anos... meu interior tem estado também num estado de geleca existencial, mas não é conotativo, é apenas algo que se define por indefinição, mesmo, e é indissociável de tudo o mais que há nessa mistura cheia de cheiros, imagens, sons, texturas e outras coisas menos palpáveis. Mas tudo ainda está plácido... hoje quase só tive pensamentos doces. Acho que é culpa da brisa que bateu aqui o dia todo, e do cheiro da rua, e do sol que pouco rompia a névoa. É um sábado bonito.
Agora azul. Talvez um azul enevoado, talvez um azul translúcido de água que corre em quantidade. Na verdade, estou inspirada pelo poema que recebi. Porque sempre me deixo enlevar por essa liquidez tão cristalina. E como meus dias têm sido líquidos! Líquidos sob todas as óticas, como por exemplo, sob uma enxurrada generosa que lava tanto pré-concepções quando más lembranças, ou sobre um mar profundo que me larga, desde sempre, à deriva de sentimentos e perspectivas gerais... ou ainda naquilo em que me banho, de mim a mim, quando tudo é tão forte que não pode se conter... sejam lágrimas ou outras surpreendentes descobertas úmidas. Líquido ainda, que me faz lembrar de Clarice e sua "Água Viva", intensamente amniótico e fluído, e que me faz lembrar da água da chuva que acentua o cheiro da terra... e água, feminina como quase tudo o que é profundo e tão amplo que é perturbador.
Mas, passo ao momento copy&paste, para matar essa minha sede:

O Sono das Águas (Guimarães Rosa)
"Há uma hora certa,
no meio da noite, uma hora morta,
em que a água dorme.

Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d'água,
nos grotões fundos
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir...

Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folhagem
e adormece.
Até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes...

Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono..."

quinta-feira, outubro 23, 2003

Esfriou aqui. Fui sentir o vento da manhã logo às oito, saindo à rua para me espalhar por aí. Claro que nada na vida é tão fluído que não tenha um objetivo, e dessa vez eu fui à luta, de novo e por quantas vezes for preciso. Mas fui com um gosto diferente. Ontem recebi um mail lindo de um país distante, infelizmente carregado de tristeza e melancolia (isso daí até parece eu), falando de sonhos já não vividos, e me encheu de uma reflexão que, no meu caso, não sei até onde é relevante. Pois estou, ainda - eu também cometendo meus plágios -, enlevada, guardando no peito uns sentimentos circunvoluntórios que vão brincando com tudo aqui dentro. Que cada vez que eu fecho os olhos, ecoa-me um lampejo sonoro na pele, eu me arrepio de delícia mas me dou conta de que tudo é transitório e passageiro. Foi curioso esse mix de instinto e emoção (muita emoção) que fez evaporar o sereno frio da madrugada, que fez com que eu não quisesse estar coberta nem por lençóis nem por mais nada... e nada hoje é tão surpreendente quanto eu estar ciente de que vou passar mais alguns dias suspirando...
Awaken dreamlog: Cheiro de ramo de pessegueiro partido. Terra que absorve, transforma, fertiliza e pulsa. Desperta, olhos febrilmente abertos, perdidos, desejosos de chuva, irrigados de desejo... corpo como que suspenso através do espírito, ainda não devolvido pelo esboço de nirvana que o tragou. Uma adolescência de hormônios e maturidade de anseios. E um rio que arrepia a pele na ousadia de se adentrá-lo, fresco, limpo e puro, cristal prismado. Impulso macio, pétalas devassadas. Perversidão suave... que delícia usar esse pronome possessivo pra denotar meu abandono... nessa noite não sou de mais ninguém...


Foto: Lightstripping

terça-feira, outubro 21, 2003

No Dreamlog, céu abrindo para os lados de Ubatuba, pôr-do-sol mais que vermelho, e eu e R. esperando não sei o quê, na casa de uma amiga dele, de exuberante colo sardento e elegante, mesmo que paire sobre ela uma espécie de caipirice... ela me agradecia o vestido (que fora dos sonhos não dou, não vendo, que ele é o meu favorito) que eu dei para a sobrinha dela, acrescentando que ela teve de reformá-lo, e me oferecia um pedaço de bolo de fubá. Quando pegamos a estrada, estávamos em um posto em algum lugar do Vale do Paraíba e quando íamos embora, o carro não pegava mais. Daí acordei.
Quase fui a São Paulo hoje, mas depois de breve reflexão, desisti. Deixo que qualquer coisa que possa se consumar, aconteça em outra hora, outro lugar.
Acho que estou começando a acreditar na existência dos súcubos. Peguei no sono inebriada de suaves perversidades... (oui, à l'heure où toi aussi tu étais réveilée...)

segunda-feira, outubro 20, 2003

Eu adoro o meu bairro. Daqui da janela do meu quarto de dormir (lateral, de fato) eu consigo ver duas grandes árvores que têm lá os seus 100 anos. Estão no quintal de uma casa que não é mais vivenda de ninguém, virou um samba do crioulo doido, com um escritório de advocacia, uma bicicletaria e nos fundos, o cafofo de um bando de motoboys barulhentos. Mas as árvores lá estão. E no topo daquele telhado ainda há uma chaminé que dá para a cozinha, devidamente tapada desde que eu só era uma guriazinha que ia brincar com a filha do vizinho.
Já a casa da dona Maria e do seu Manuel (nem preciso dizer de que país eles vieram), mais perto da minha janela, tinha um quintal com uma pequenina horta e uma edícula onde vivia o filho louco deles, primo de um falecido prefeito daqui, o mesmo que introduzira gatos nos jardins da praia, pra não ter de gastar dinheiro com veneno pra rato. Sempre achei que a loucura não era só do primo mais novo do prefeito, quase tão empreendedor quanto este. Certo dia, com uma hélice de ventilador e um desses abanadores japoneses, ele fez um cata-vento que foi fincado no alto, bem no meio da horta. Minha diversão sublime da pré-adolescência era olhar dentro dos olhos do louco, o máximo de tempo possível. Era sempre ele que perdia a paciência, agitando um pano na minha direção, tomado de ira, gritando: "rááá! rááá!". Num dia qualquer, perdido na irrelevância dos barulhos da avenida movimentada, eles se mudaram e o quintal foi cimentado, a casa reformada, e quando meu computador enguiça, é pra lá que eu o levo no colo, para que os garotos da loja de informática dêem um jeitinho que o faça funcionar melhor. A única vida que povoa o cimento do quintal (às vezes com montinhos de cocô, hélas) é a da Nina, uma cadela vira-lata com uma cara de velhinho frágil, uma orelha sempre alerta, a outra sempre caída, que sempre late nas horas noturnas em que ouve o bater deste teclado.
O que será que pensam eles todos dessa minha janela, que há anos guarda uma menina sonhadora que, hoje mulher, olha o hoje e o ontem atrás de uma moldura cuja persiana quebrou há alguns dias?

domingo, outubro 19, 2003

Daí que segundo idéia roubada da Cam, eu analisei o grau de bondade/maldade do meu blog segundo a Gematria. E deu isso (olhar diabólico, agora...):
This site is certified 57% EVIL by the Gematriculator
E pois bem, o receio do sábado, que acabou não se arrematando, diluiu-se por si só e teve sua substituição. Por palavras jogadas a quatro mãos, uniram-se mais alguns gomos de um grande emotional patchwork, bem costurados, talvez, não acidentalmente, de um tecido mais suave e macio, mais delicado, mais... com taças de prosecco imaginado, risotto aux champignons et épinards, a imagem de um olhar brilhante e mãos que se apóiam na cama. Si tu étais ici, je ne te dirais que... viens...

sexta-feira, outubro 17, 2003

Peut être pas besoin de le dire, mais... je suis absolument enchantée... :-)
Sabe quando há tempos não se tem uma conversa fluída, saborosa...? Pas besoin de le dire...
E enquanto as expectativas continuam, minha permanência é essa: febre, amídalas inflamadas, e um estado agudizado de improcedência no mundo.

Update revoltado: Acho que o Blogger Brasil se confundiu com o Big Brother Brasil: está chutando os seus desafetos. Já não chegou o Suruba Digital, também sumiram com o Uva na Vulva. No caso, a inviabilidade enconômica se confunde com intolerância sexual.

quarta-feira, outubro 15, 2003

Deixar o correr das horas ao sabor do que toca no rádio (quando se está em casa) é mesmo estranho. É uma coisa às vezes anti-estilo, visto que o que toca é Supertramp e não tem ser menos Supertramp que eu (talvez meu barbudo irmão mais velho tenha mais a ver com eles). Mas nem sempre o rádio toca Coldplay, Portishead, Belle & Sebastian e outras coisas deprês, sem esquecer do Radiohead, claro. Por praticamente ouvir só a Eldorado, estou sob a influência dos caracteres cools da MPB: Ná Ozetti, Rita Ribeiro, senhores Jairzinho e os filhos todos da Elis, Paula Lima, Zeca Baleiro... mas agora o George Michael faz versãozinha da Nina Simone, com "my babe just cares for me", que eu adoro.
Blogs novos e interessantes: o do poeta atleticano (do Paraná, não de Minas) Flávio Jacobsen e o 100 Sal (nem tanto), de uma garota santista que não sei em qual lugar do Brasil mora.
Nessas últimas horas eu dormi tanto que era pra desfiar linhas e mais linhas de Dreamlog. Numa hora em que fechei os olhos na realidade e os abri para o sonho, encontrei a nudez de S. em minha cama sonolenta e senti o quentinho de sua pele, para abrir os olhos de novo e encontrar o sol batendo na minha perna; quando ainda havia a escuridão da madrugada, eu estava com minha mãe em uma casa escura, procurando lâmpadas para colocar, e descobrindo bugigangas esquisitas em cada cômodo da casa que era de uma amiga dela e que passaria a ser nossa. Sonhei tantas outras coisas, mas não lembro de nenhuma.
Tenho medo do sábado, medo da minha inconstância vinda de uma lua em aquário somada à minha carência vinda de um sol em touro...

terça-feira, outubro 14, 2003

Dreamlog que se escapa dos dedos: no carro com uma mulher loira que é tia de um ex-amigo e que se mostrou ciente de acontecimentos dolorosos. Ela me dizia que ele sentia minha falta, que um telefonema seria bem vindo e eu o fiz, e parecia que a intimidade perdida se recuperara, apesar de saber dos tantos meses que haveria para colocar em dia. Depois, na casa dessa mulher, à beira de uma praia de onde se viam várias pequenas ilhas (influências de Paraty, voilà), e onde o poente trazia uma névoa que tornava tudo leitoso. Havia também algo estranho, algo mau, que esperava a noite cair para me pegar... havia estrelas no céu que se movimentavam, e uma força meio animal que crescia conforme o cair da noite. Sem chegar a entender o que acontecia, acordei.
Hoje não chove. Portanto, acho que vou colocar em ação meu plano de andar por aí (apesar da dor de cabeça que me martela há dois dias).

Depois de conversar brevemente com essa menina tão ocupada, percebi que a saudade é uma via de mão dupla. Nem sei porque ela exerce esse encanto sobre mim, mas que ela é encantadora mesmo, isso é fato.

segunda-feira, outubro 13, 2003

Brrrr.
É estranho quando a cabeça da gente já se acostuma a um determinado clima. Antes dessa frente fria, andava fazendo um veranico, e eu já estava andando toda fresquinha, de camisetinhas, sainhas, sandalhinhas e coisas assim. Agora me recuso a colocar calças compridas, casacos, mangas compridas, e espirro. Tusso. Coço o nariz. Esfego as mãos. Tomo banhos-canja.
E não estou mais triste. Ou estou. Ou oscilo. A mocinha de Taubaté foi internada, antes que cometesse uma loucura maior. Choque e sonoterapia. Isso me enche de medo. Muito.
Não tenho mais direito de sentir saudade de S. Mas, estranho, nem dói nem nada. Tsk, tsk. Eu vou é cantalorar a música do João Suplicy, que fala de não querer choramingar pelos cantos e de fazer a fila andar. Por a fila pra andar. É engraçado.
Ô preguiça de tudo.

domingo, outubro 12, 2003

Eis meus posts de papel:

Sexta 10, 1h15, Ubatuba:
Lua cheia sob uma tênue camada de nuvens, máscara de pepino no rosto, pernas depiladas e nenhum efeito do sol sobre a pele. Hoje não houve praia. Viagem de vinda com escala na casa de uma ímpar família em Taubaté. Eu, fama de filha ingrata (não entre eles) e egoísta, solidarizei-me com aquela mãe doce e faladeira, deixando o verbo fluir, escoar, espalhar-se. A filha, amiga de R., uma pessoa que tem um nível de depressão que nunca pensei existir, ou melhor, com o qual nunca havia deparado.
Na Lan House, sem tempo de escrever, mas feliz com os comments. Já saudades dos meus amigos/personagens [adendo: adorei os posts de mlle. Seslaf e Frau Zeit], mas desejosa do casario de Paraty, das areias de Trindade e do solzinho de Ubatuba (Ubachuva mesmo, que já caiu um aguaceiro por aqui hoje). Também meio que administrando um paciente enfado de conviver com o imediatismo alheio. Saudade (auto-reprovável) de S., sono demais para esperar Maria Rita falar e cantar e sempre (como agora) vontade de escrever. Que fazer? Postar no papel, como na Porto Alegre de há mais de um ano atrás. Aliás, achei uma caixinha vermelha enviada de lá... uma esponja em forma de coração... nostalgia, só. Dias irrecuperáveis e ultrapassados pela enfim maturidade.

Paraty, 14h50:
Fumando (sim, eu tenho dessas pútridas contradições em meio à natureza), dia nublado em uma aprasível pousadinha. Dia de turista, andando pelas pedras das ruas históricas desta linda cidade. Andano sim, mas por vestir bem a máscara de turista, não posso dizer que tenho flanado. Ganhamos uma estadia de 3 dias em outra pousada, eu e R., e poderemos trazer mais gente. Moços e moças bonitos, quem se habilita a vir aqui com a gente em outra ocasião?
Um poodle me perscruta com olhinhos intrigados. E, mais tarde, ninguém vai perder o último capítulo da novela das oito. Nem o chihuahua que faz par com o poodle em sua observação paciente.
AMUEI! A maré os barcos, os transeuntes locais e estrangeiros. Tendo internet, eu moraria aqui na boca. Siamo tutti amicabili. Essa noite, bossa nova e jazz; amanhã, talvez, Trindade...

Apesar da ausência, dreamlog, só para postá-lo ainda fresquinho. As lágrimas de fora acabaram infiltrando-se nos meus sonhos. S. estava lá, chegou de manhã em casa e viu que eu não estava mais sozinha, pelo menos não naquele momento. Quem de fato havia me pego no flagra fora minha mãe. Mas no minuto seguinte, S. recebeu um telefonema que dizia que sua irmã morrera. E eu lhe dei um abraço e chorei junto. Isso tudo talvez porque fora dos sonhos eu tenha me pego com uma ponta de ciúme, e um pouco de tristeza. O pior é que por mais que esse sonho tenha sido estranhamente verossímel, nada é tão real quanto a própria vida e essa dói.
Mas o fato é que estou voltando do litoral norte, derrotada pela chuva, antes da segunda ou terça, para quando a volta era prevista. Não senti o gosto do mar, não usei uma gosta sequer de protetor solar, não tirei o maiô da mala... fiquei mesmo, apesar da chuva que me empurrou de volta a Santos (eu fui com R., amigo há 9 anos), maravilhada com o casario de Paraty, aquelas ruas de pedras que não admitem saltos altos, aqueles cafés charmosos, aquela maré implacável que invade as ruas, os barcos, o ar misterioso e fantasmagórico das horas noturnas... e a estranhesa que o RJ me provoca... R. e eu fomos numa boate GLS chamada "Dama da Noite"... ugh. Por que tive a impressão que que cada uma das músicas que tocou tinha uma roupagem "funk"? Por que lá todo mundo parece ser mais magro, moreno e apreciar tudo o que é sensual e fresquinho? Claro, sobretudo conhecendo R.D., que sei que nem tudo é estereótipo. Mas porra... de qualquer maneira, pela presença massiva de estrangeiros na cidade, fiquei pensando que um trabalhinho de intérprete no verão, não seria de todo má idéia... mas enfim, nada de planos, como sempre. Depois (não hoje, cansaço demais) vou postar as poucas coisas que escrevi de lá...

terça-feira, outubro 07, 2003

Auto-descobertas.
Brevidade.
Amizade.
Saudade.
E se rima não é de propósito.
Acordes dissonantes me fazem
chorar,
pensar,
lembrar.
Você me faz. Me apraz.
Mas não mais me satisfaz.
Agora sim eu quis rimar.

E lágrimas ao fim de um breve telefonema. Nem mais luto, já que é em vão, por que pensem que eu não sou assim tão melancólica. Sou menos do que pareço a quem lê e mais do que pareço a quem vê. Às vezes creio enxergar nos olhos das pessoas, que elas estão percebendo aquilo. Nesse sábado perceberam. Será uma aura? Vou fiando os anos sem chegar à conclusão de que sou diferente do que sinto. Nasci com esse spleen.
Até em dreamlogs, há o spleen, na desconfortável sensação de ser um bicho acuado. Spleen quando acordo, e algumas vezes um que me espera no tecido suave da fronha.

(.intervalo confuso: quero que eu seja tomada e levada por cada braço, cada mão macia. Quero subverter cada instante do meu cristianismo e trocá-los por essa iniciação profanadora do meu pudor. Quero perversão em forma e conteúdo, um alfômega de sentidos, uma entrega polilateral e que tudo se arremate com suavidade. Nem que só na minha... imaginação?)

Tudo isso, pelo menos até quarta-feira. Cachoeiras de Ubatuba, lavem-me e levem-me à estaca zero da dor!

Spleen: na sua forma aportuguesada esplim, encontrada no dicionário do MEC, "tédio de tudo". No Dictionnaire Universel de Poche, Ed. Hachette, "ennui que ne rien ne paraît justifier, mélancolie".

sábado, outubro 04, 2003

Tarde, tarde da noite. Um desalento assim que é sono, tédio e falta de carinho. Um arrependimento e uma raiva de ter dito algo que foi rebatido com escárnio, algo que me fez sentir frágil, meio que pega no pulo, nua como que desprotegida, envergonhada, ridícula. Tanto rubor, tanto. Que raiva. Garotinha pega no pulo.

Triste. É a hora...
Mas feliz pelo som das palmas, pelos olhares brilhantes e pelo meu amor por cantar. Feliz pelo vinho contido em belas jarras, pelas flores na mesa e pela tarde que usei fazendo meus docinhos de massa folhada. Feliz pelos momentos, breves ou não, de alegria no coração e afeto no olhar.

Saudade daquele início empolgado e de destempero quase adolescente, das ousadias, e da vontade de estender tudo até o dia seguinte...

update: frase pra ser usada um dia: quem sabe já não nos encontramos por adolescências perdidas?

quarta-feira, outubro 01, 2003

Eu sei que a prolixidade costuma ser a principal característica dos meus textos. Sei que, no entanto, eles estão ficando curtos e cada vez mais enigmáticos, ou então, são meus dias que perderam a variedade, ou... o fato é que estive lendo os primórdios desse blog (outro nome, outro endereço e uma semente desta que vos fala) e vi que escrevia tanto tanto, que as coisas saíam de mim em jorros (digamos, apenas as coisas expressadas pelas palavras), que eu só aplacava minha ânsia de entendê-las, escrevendo. Acho que é apatia. Ou talvez renúncia. Mas há tempos que a palavra paixão, não só aplicada ao rebuliço que um outro pode me provocar, não tem sido muito usada no meu vocabulário existencial.
Estou de leituras realmente anódinas: Érico Veríssimo, tão singelo, tão imerso nas purezas rio-grandenses, tão primaveril e com cheiro de mato, e eu até gosto, apesar de ter como ídolo maior o filho dele.
Que mais? Mais nada. Estou nublada como este dia fresco.
Pétala a pétala
com delícia se desfolha
a alcachofra.

Jorge Lescano