Sexta-feira, Julho 03, 2009

Sonrisal

Morreu a Pina Bausch mas o povo deu mesmo atenção ao Michael Jackson (e um pouquinho, convenhamos, à Farrah Fawcett). A coreógrafa alemã não fazia plástica, não mudava a cor da pele, não era acusada de comer criancinhas, então não teve relevância o suficiente para mais que umas notícias pingadas. Na verdade, umas notícias pingadas está até bem. O que enche os pacovás é a overdose que a cobertura da morte de MJ nos impõe, não bastasse a overdose de remédios a que o artista se submetia.

Pensando bem, essa é a era da overdose. Prefiro o comedimento da cobertura de Pina Bausch, já basta.


Muito obrigada pela atenção dispensada e bom fim de semana aos meus 2 1/2 leitores. :-)

Sábado, Junho 20, 2009

Justificativas

É uma vontade de nada dizer com a consciência de que tenho tanto a dizer, mas fora daqui. Em outras linhas e entrelinhas, com outros parágrafos em espaço 1,5.
Ou então articular, com língua e dentes e palatos duro e mole, a pronúncia das palavras. Aproveitar que o dia é de sol que, com esperança, secará toda a umidade da semana-brejo, abrindo as janelas, estendendo as roupas, pegando a bicicleta de pneu traseiro vazio e se entregando à realidade, seja ela suburbana, metropolitana, tenha ela luzes, sons, pessoas ou mobiliário. É Porto Alegre quase inverno e não faz frio. Nem em mim, nem em lugar nenhum da cidade.

Segunda-feira, Junho 08, 2009

Antes da internet

Era como eu passava algumas noites há vinte anos atrás, numa cidade de médio porte, no silêncio gelado da cozinha, onde o som do rádio tinha mais eco e presença. Era assim que o mundo, sempre estranho, chegava aos meus sentidos e me fazia sonhar em alcançar o que hoje eu (penso que) tenho nas mãos.

Segunda-feira, Maio 25, 2009

Cute creepy

Virei fã da bandinha da Zooey Deschanel.

Sexta-feira, Maio 22, 2009

Sutura

Hoje eu vi que acordei da anestesia, sentindo os pontos da cirurgia queimando e dando a impressão de que iriam se abrir e rasgar minha pele. Vi que a sensação da intervenção e da extração ainda estavam ali, como aquele apêndice que quase estourara no passado, e senti aquela dor da coisa que não está, não é, não lateja. O que lateja é a lacuna buscando adaptar-se a si mesma, todo o organismo lutando para voltar ao normal, para desinchar, para que a pele aplaine e volte ao frescor de antes. Nem sempre volta.
Hoje eu ouvi aquele nome ecoar no dia e me dei conta de que a realidade é só a realidade, que é a única coisa que há de preencher as minhas lacunas.

Terça-feira, Maio 19, 2009

O fascinante lado de fora

Dizem que a exposição Corpo Humano: Real e Fascinante, que está percorrendo o Brasil e está nos seus últimos dias aqui em Porto Alegre, não é de assustar os mais impressionáveis. Como os diversos recortes dos cadáveres chineses que, ainda em vida, doaram-se à ciência, foram polimerizados (plastificados, a grosso modo), tudo aquilo parece que não é com a gente. Mas é. O mérito dos corpos plastificados não é substituir um modelo feito em resina, mas sim mostrar as diferenças que cada corpo apresenta em seus órgãos internos, o efeito das doenças no organismo, as peculiaridades anatômicas etc.
A maioria das pessoas passa, sem grandes emoções, pelo exame minucioso ao incrível sistema circulatório, pelos pulmões saudáveis e atacados pelo câncer e só treme na base - assim supõe a curadoria da exposição, que anuncia um "é por sua conta e risco" - no espaço reservado aos fetos, que mostra bebês em diferentes estados do crescimento intrauterino. Os fetos, esses, me deixaram encantada, tanto pela rapidez com que dobram de tamanho dentro da mãe, quanto pela fragilidade de sua estrutura, mãozinhas e pezinhos, ossos ainda desarticulados, uma aparência quase translúcida flutuando no líquido amniótico.
O que me impressionou, mesmo, e me abalou, foi ver, nas laterais dos recortes, ou nas traseiras das peças, toda a riqueza de detalhes que faziam daqueles "exemplares" expostos indivíduos humanos, quando em vida: uma ponta de nariz com alguns cravinhos, os poros da pele das costas, os pêlos do nariz e das orelhas, sobrancelhas, o couro cabeludo raspado de homens e mulheres, um detalhe de mão calejada de um possível lavrador. Ali, em meio às vísceras expostas, aos corpos arreganhados em sua concepção mais radical e profunda, o que me emocionava era pura e simplesmente o lado de fora.

Segunda-feira, Maio 18, 2009

A pedidos

- A hárpia é uma águia que entrou na H. Stern.

- O corpo humano é real e fascinante.

- A natureza humana é irreal, perversa, ridícula, imatura e faz parte de mim.

- Os banhos de chuva de "Ensaio sobre a cegueira" são abençoados.

- Red tara for you, for me and the cockroaches.

Sábado, Maio 16, 2009

A verdade sobre a internet?



Tirei daqui.

Sexta-feira, Maio 15, 2009

Wings dreamlog

Eu andava por uma rua arborizada e tranquila quando, de repente, ouvi um som de asas e me virei para trás. Era um sabiá gigante pousado em frente a uma loja fechada. O sabiá se ocupava de uma coruja de tamanho normal (normalmente grande, mas não tanto quanto o sabiá, que era mais alto que um homem), que sofria pela dor de um pé ferido ou quebrado. O que eu sentia era que de alguma maneira eu me comunicava com o passarinho gigante, ainda que agora eu não me lembre o que nós conversávamos. Passei a acompanhar os dois na caminhada (apesar de ser um pássaro, ele aparava a coruja como se ambos fossem pessoas) e passamos por um gato que, em condições normais, se poria a caçar o passarinho. Mas era um gato tão gordo que tentava se levantar do asfalto e não conseguia, tanto era o peso da barriga que o ancorava ao chão. Eu e os pássaros caçoamos do gato. "Que gato patético! Que gato ridículo", dizíamos, enquanto o gato mal nos olhava, tentando se levantar da sua imobilidade molengona.

Segunda-feira, Maio 04, 2009

A cidade e a quimera

Eu já fui a Lisboa, a Paris, a Amsterdã. Eu já fui a Ubatuba, a Brasília, a Nova Petrópolis. Mas existe uma cidade onde nunca estive. É uma cidade imaginada, misto de Passárgada, Liliput, Atlântida e as cidades extintas dos povos antigos, e as cidades utópicas de Ítalo Calvino. Para essa cidade que quero visitar, tenho uma passagem comprada, data indefinida, que guardo entre as páginas dos meus livros, ou em uma gaveta de tesouros (essa passagem se parece, às vezes, com um bilhete de loteria. Será que vou ser escolhida, como a Dra. Arroway de "Contato", a fazer uma viagem interplanetária que me levará às praias galáticas da memória do passado e do futuro?).

Não que seja longe. Essa cidade é logo ali. Onde? Ali, onde o rio faz a curva e de onde vem uma música doce que acaricia os ouvidos e um cheiro de flor que o vento traz, quando venta trazendo chuva. Acontece que essa cidade é como Carcassone: é envolta por muralhas medievais, que parecem intransponíveis em sua altura e espessura (sabe-se lá quantos metros de tijolo que os aríetes não destroem) e a gente acaricia a pedra e nela encosta o corpo e o ouvido. Mas não alcança. Não ouve. Não vê.

A cidade precisa do muro e, com ele, talvez salvaguarde riquezas inimagináveis que nenhum pirata pilhará, nenhum saqueador destruirá e que, via de mão dupla, não dará ao mundo a chance de brilhar os olhos de visitantes maravilhados, não sentirá o prazer das idas e vindas, dos barcos atracados, dos trens na plataforma e saudações alegres e despedidas lacrimosas. Só poucos adentrarão pelas portas que quase nunca se abrem.
Os preguiçosos desistirão da viagem. Afinal, há tantas cidades belas e cheias de palácios e ruas e cafés e teatros, acessíveis por mar, ar e terra. Os persistentes, visionários e esperançosos não se deixarão abater, mesmo que ao cabo de sua busca, a cidade se mostre um vilarejo fantasma que permaneceu à larga do desenvolvimento e da plenitude, que nem os peregrinos haverão de salvar. Ao lado da cidade misteriosa, vão erigir uma vila. Plantarão flores aos pés da muralha, ao longo da vida que continua na sucessão das estações. Haverá música tranquila e redes penduradas nas tantas árvores em volta. O vento que venta trazendo o som e a chuva é o mesmo. O céu que olha as cidades, mesmo essa, assim como todas as cidades do mundo, ilumina-lhes com as mesmas estrelas do norte e do sul do planeta e lhes dá o sol e a lua, o frio e o calor, a esperança e a decadência. Por baixo das pedras, as raízes das plantas se tocam e se entrelaçam na profundeza da terra e chegará dia em que as frestas se tornarão maiores e mais uma vez a porta se abrirá para acolher mais habitantes, porque em cada um há um duplo que já mora lá. E cada um há de encontrar um pouco de si mesmo entre os transeuntes e se verá espelhado nas vitrines belas dos cafés da cidade murada e imaginada.

Domingo, Maio 03, 2009

Belle comme un mensonge

Estou encilhada por ramos de manjericão embrenhados nos meus cabelos, me inebriando de um cheiro escandaloso de promessas gustativas. O cheiro é que me guia e me mantém de rédea curta à mercê da sensação.
Sou escrava do prazer que não vem, da lembrança que não vai. Angústia enterrada, semente de crise e o que há de nascer é outra coisa. Outra pessoa, até, encarnada em mim. Mas será a verdade inaudita uma mentira muda? Será que a semente da verdade enterrada não é uma vida mentirosa ou, pior, omissa, vendada, amordaçada?
Vou encilhada de manjericão e sálvia e o sabor das minhas mãos só me dá a certeza de quem me guia sou eu mesma.

Sábado, Maio 02, 2009

A noite/1

"Não consigo dormir. Tenho uma mulher atravessada entre as minhas pálpebras. Se pudesse, diria a ela que fosse embora; mas tenho uma mulher atravessada em minha garganta."
Do "Livro dos Abraços", de Eduardo Galeano

Quarta-feira, Abril 15, 2009

Take your passion and make it happen



Isso é too much eighties, não é mesmo, minha gente? É uma coisa muito do empreendedorismo, das ideias mágicas, de vencer na cidade grande.
Em suma, é cafona. Mas tem lá seu fundinho de verdade: mostrar, sem amarras nem defesas aos olhos do outro, a fragilidade exposta, a paixão que se tem e que é indisfarçável. Para ganhar ou perder. Mostrar.

Sábado, Abril 04, 2009

O efeito tostines da dor

É o tipo da coisa curiosa esperar o momento certo para largar um texto cheio de fel, cheio de dor, cheio de frustração, porque antes a pessoa se sente tão anestesiada por tudo que não tem vontade de dizer nada. Uma psicanalista dizia hoje no caderno de fim de semana do Valor, que a impressiona, tanto quanto o fenômeno pipocante da depressão, gente que lhe chega no consultório dizendo que o que não aguenta mais é não sentir nada, viver dia após dia como nada mais que um dia depois do outro, sem esperanças nem desesperos. E o que é o mal da vida pós-moderna senão padecer pelo excesso de estímulos? Reagindo a ele sem mais forças, sem mais vontade, porque já se é um bagaço. Consumidos pelo que desejávamos consumir.

Sábado, Março 28, 2009

Vamos participar?

Quarta-feira, Março 25, 2009

(Não) é lindo morrer no mar

Sob os 31º dessa tarde de outono em Porto Alegre, um luto indumentário completamente deslocado, e o Guaíba azul como o mar e o céu, banhando ilhotas verdejantes que não remetem às estiagens tão comuns. Deve ventar bem gostoso e eu não sei disso pois respiro a poeira do ar-condicionado, uma atmosfera que nos condiciona à mediocridade e apatia da vida intramuros.
***
Tristefeliztristefeliztriste é a ciclotimia desfocada, indefinida, despropositada de um barco ancorado que, ao sabor de ondas e ventos, oscila e se agita mas está sempre só preso ao fundo. O capitão está morto ou adormecido, ele não iça a âncora, infla a vela e aproveita a corrente, coisa que ele poderia fazer sempre, mesmo à deriva. A profundeza o impede de seguir e ele é covarde demais para se debruçar sobre a profundeza e ver o que impede a âncora de se soltar. Vai ver é um monstro marinho que só existe nos sonhos dele.

Quinta-feira, Março 12, 2009

Retratação


Reflexão surgida da conversa com o Renato, que me mandou esse vídeo comovente, acima. Por que nos divertimos tanto com a desgraça e a bagaceirice dela? Talvez porque as tragédias pessoais, que cada um interpreta da maneira como pode, tenham ganhado conformações globais e disseminação viral e porque, óbvio, há sempre alguém que ganhará dinheiro com isso.
E daí que ela vai morrer logo? É a vida dela e ninguém tem nada com isso. Queremos que o rouxinol pie para nos entreter. Se ela pudesse enfiar o pé na jaca para sempre e cantar maravilhosamente a vida toda, que bom seria, não é? Não.
Esquecemos que Billie Holliday também teve vida fulgurante, auto-destrutiva e breve, que Ray Charles foi preso por porte de drogas, que Charlie Parker teve uma vida marcada de tragédias, que Van Gogh cortou a própria orelha e cometeu suicídio, acompanhados por Virginia Woolf e Ernest Hemingway. Temos até uma Maysa metida em escândalos e retratada de maneira atenuada na televisão. Cada um nos ofereceu um talento que, em parte, era fruto de sofrimento, e totalmente fruto de vidas ímpares e, sobretudo, particulares. Assim como nós: cada um dá o que pode e expressa o que é. Ainda bem que não somos famosos e o mundo não nos julga por viver. Ainda.

Weird drops

- Sonhos, sonhos são, e dão um nó na minha cabeça, quanto mais rocambolescos e lyncheanos eles são.
- Yeda Crusius está no twitter: todo mundo sabe que é um perfil fake, mas é tão delicioso e auto-irônico que eu fico a me perguntar: quem será?

- A semana corre, a luz fluorescente ilumina a vida profissional das pessoas, eu sinto sono, eu vejo filmes, eu ouço música e tudo me dá a impressão de que a vida é um moto-contínuo destituído de significação.
- Dentro desse espírito, chegou a me parecer que não é tão boboca a frase da mãe do Forrest Gump, quando diz que a vida é uma caixa de bombons. Tem gente que abre uma caixa de bombons esperando que vá encontrar outra coisa, mesmo (mas ela e Cris me garantem que, dentro da caixa de bombons, evocando um conto de Cortázar, pode haver até baratas). Então tá.

Quarta-feira, Março 04, 2009

A Ziquezira de Amy

O gentil leitor sabe que a blogueira que vos fala não é afeita a fofocas de celebridades, mas a verdade é que, nos minutos entre um almoço francês e uma sobremesa argentina, a gente se põe inevitavelmente a pensar na temível sina que espera a dulcíssima Amy Winehouse. Não dissuadido pela atuação promissora do voo de volta a Londres, o pai da moçoila diz que tem esperanças de que, passando a morar em Barnet, no subúrbio da capital inglesa, ela vá adotar uma vida mais tranquila e brejeira.
Os debatedores da desgraça alheia, discordamos: não só é possível que Amy motive a inauguração de uma boca de fumo exclusiva em tão pacata localidade, quanto, depois de apresentar os mais diversos furúnculos, perebas e escoriações derivadas de drogas e álcool, ela também vá envergar bichos-de-pé, berne e bicho geográfico, que são as ziqueziras típicas desses lugares mais bucólicos.

Quinta-feira, Fevereiro 26, 2009

Borboletas no ventre

Por que, para algumas pessoas, a volta à cidade natal é sempre uma experiência estranha e desconfortável de contato com o passado?